Sem ônibus nas ruas, mototaxistas lucram cobrando até R$ 40 por corrida

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O cidadão – vamos chamá-lo de Gerson –  acorda para mais um dia de labuta. Põe a farda, sai de casa, pega a moto e se pica para o trabalho. Só que, chegando lá, vê que seus colegas decidiram paralisar as atividades e ele fica sem poder cumprir a sua jornada. A seu lado, vê um rapaz, numa moto igual a sua, cobrar até R$ 40 por uma corrida. O que você faria?

Nosso Gerson, que preferiu não se identificar, não pensou muito: “É, tá dando dinheiro”, comentou com a reportagem na Avenida Suburbana. “Vou para casa agora pegar um colete de mototaxista”. A lei de Gerson também é a da oferta e da demanda: por cada corrida, ele cobraria 15 vezes mais que os R$ 2,80 de uma passagem.

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“Da Suburbana até a Calçada, dá R$ 25, até o Comércio é R$ 30 e até o Iguatemi faz R$ 35 ou R$ 40, depende do engarrafamento”, disse outro mototaxista, este desde sempre  pertencente à categoria, que também pediu anonimato.

Quem não foi salvo pelos mototáxis ou teve a sorte de conseguir se encaixar no trajeto de um dos 300 micro-ônibus do Sistema de Transporte Complementar (Stec), que funcionaram nesta terça (27) em esquema especial, recorreu às vans, que cobravam R$ 3 pelo trajeto.

Essa foi a alternativa da garçonete Telma Cristina Alves Machado para conseguir chegar ao trabalho, na Mouraria. Ela pegou uma topic clandestina em São Cristóvão, onde mora, e conseguiu chegar no horário em que deveria começar a trabalhar. Mas, para sua surpresa, não havia ninguém lá. Nem os próprios chefes.

“Fiquei esperando mais de uma hora e ninguém apareceu”, disse a garçonete, que agora, já cerca de 10h, começava a encarar o segundo problema: voltar para casa.

Telma foi até a Estação da Lapa, mas, como era esperado, nenhuma das três opções de ônibus para São Cristóvão estavam disponíveis. Apenas os micro-ônibus da frota complementar faziam transporte na estação, mas nenhum servia. “Vou esperar mais um pouco para ver se aparece algum que vá pra lá. Ou então eu vou ter que descer e tentar achar um transporte clandestino mesmo”, afirmou.

Telma só chegou em casa às 11h30, depois de pegar duas vans clandestinas: uma da Lapa para ir para Itapuã e outra para chegar em São Cristóvão.

Hoje, pelo menos, ela já conseguiu uma solução. “Meu chefe disse que era para eu ir que ele vem me trazer em casa”.

A precaução de Telma é compreensível, embora não se saiba  se ela vai precisar da carona. Para hoje, o Sindicato de Rodoviários afirma que desde a manhã vai orientar a categoria a colocar na rua o mínimo de 70% da frota, exigido pelo TRT. A polícia fará a segurança dos rodoviários que quiserem trabalhar (veja ao lado). Uma dissidência da categoria, porém, afirma que ninguém sairá das garagens. Vale lembrar que o sindicato disse que ontem não haveria greve, enquanto a dissidência afirmou que a categoria pararia.

Chateada com a greve, a auxiliar de serviços gerais Veruska Rodrigues não teve a sorte dos que tinham uma van enviada pelas empresas para chegar ao trabalho. “Vou ter que aventurar uma topic. Estou aqui esperando para ver se passa, o que eu não posso é ficar sem ir trabalhar”, disse a auxiliar, que estava no Iguatemi tentando chegar a Brotas.

A ver navios

O pedreiro Jorge Ferreira dos Santos, que mora em Pirajá e trabalha em Lauro de Freitas, sofreu. “Pego três ônibus para ir e para voltar todo dia. Ontem (segunda) foi um transtorno. Depois do trabalho, eu vim de Lauro, dei sorte e consegui pegar um ônibus até a Madeireira Brotas, depois consegui uma carona até a rodoviária e, de lá, juntei com outras pessoas que estavam vindo e peguei uma van para Pirajá por R$ 5. Se não fosse assim, teria que vir andando, como muita gente fez”, contou.

Mesmo com tanto transtorno, Jorge decidiu tentar chegar ao trabalho. “O chefe disse para ninguém ir, mas eu estou aqui tentando pegar um ônibus para ir trabalhar”, disse. Ele chegou ao ponto de ônibus na Praça General Labatut, em Pirajá, às 4h40. Quase três horas depois, às 7h, continuava lá, sentado, junto a dezenas de outras pessoas.

A babá Gildete Jesus Almeida, que também mora em Pirajá, aguardava até 7h de ontem uma forma de chegar ao trabalho, no Engenho Velho de Brotas. “Ontem, eu saí do trabalho 18h30 e fui andando até a rodoviária, foi um inferno. Liguei para a patroa e ela quer vir me pegar, mas disse que não pode me trazer depois, o que vai ser um problema”, disse.

 Jorge foi paciente e depois de 3h50 de espera, retornou para casa às 8h30: “Amanhã (hoje), não tem mais como ir, sem transporte. A não ser que a empresa mande um carro pra pegar”. Até que ele e outros desistissem dos coletivos, o passeio da igreja, onde fica o ponto, esteve  lotado, mas nenhum ônibus passou.

Ao longo da manhã, percebendo que os ônibus realmente não iam rodar, os passageiros foram esvaziando os pontos e as estações de transbordo, como no Iguatemi, onde poucos ambulantes trabalhavam e nos pontos  dentro da rodoviária.

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