Escolas investem no ensino da cultura afro-brasileira

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Nos corredores da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, figuras de orixás, objetos em cerâmica, tecidos e cartazes na língua iorubá fazem parte da decoração, lembrando a história e a cultura afro-brasileira. Mas é a metodologia de ensino voltada para a consciência étnica e o resgate da cultura africana através do desenvolvimento de atividades e vivências que possibilitam às crianças a construção do conhecimento cidadão consciente que tornam a unidade escolar uma referência em Salvador e no Brasil.
Instalada dentro do tradicional terreiro de candomblé Ilê Ilê Axé Opô Afonjá, no bairro do Cabula, a unidade é uma das 425 escolas municipais que aplicam a Lei Federal 10.639/2003, que trata da obrigatoriedade da temática História e Cultura Afrobrasileira, atendendo à grade curricular determinada pelo Ministério da Educação (MEC).
“O nosso objetivo não é ensinar religião africana. Nós buscamos a formação de sujeitos autônomos e conscientes. A idéia é fazer com que as crianças se conheçam, conheçam sua história e se sintam pertencentes a algum lugar. Isso faz com que as crianças tenham sua auto-estima elevada, diminui o preconceito e a discriminação”, afirmou a vice- diretora da instituição, Iranildes Santos.
Caminho da Alegria
Fundada em 1978, a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, homenagem a primeira Ialorixá e fundadora do terreiro, foi municipalizada em 1998. Atende hoje cerca de 300 alunos com turmas da educação infantil (grupo 5) até o 5º ano do ensino fundamental. Desde 1999 a unidade implantou o projeto Pedagógico Yrê Ayó (Caminho da Alegria), da historiadora Vanda Machado, pautado na história e cultura do povo afrobrasileiro.
Com a sanção da lei 10.639, o projeto ganhou força e reafirmou a prática do ensino da história e da cultura afrobrasileira. O projeto pedagógico da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos utiliza os mitos africanos no processo de ensino e aprendizagem das crianças. As histórias são resultados da vida em comunidade no terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, buscando resgatar, preservar e propagar a cultura afro. “O projeto é renovado a cada ano. Ele é adaptado à realidade de cada turma e à identidade dos alunos”, ressalta a gestora escolar.
Mitos como o “A Transformação da Conquén”, que conta a história de uma galinha d’angola que vivia reclamando do mundo. Depois que ela conheceu algumas palavrinhas mágicas, como “bom dia” e “obrigado”, passou a fazer amizade e se tornou mais feliz. “A história serviu pra que a gente pudesse trabalhar alguns valores como o da amizade, a solidariedade e a importância de viver em grupo”, destacou a professora Catariana Pedreira.
“As dinâmicas trabalhadas dentro da sala de aula buscam retratar a realidade dos alunos e da comunidade onde eles estão inseridos. Nem sempre os livros são suficientes. Por isso, nós professores, fazemos pesquisa em livros e na internet para trazer este conteúdo para eles”, ressaltou. O método de ensino, por meio das dinâmicas dos mitos africanos, desperta a curiosidade e o interesse dos alunos. Aluno do 4º ano do ensino fundamental, Islan Santos do Bonfim, 10 anos, reconhece a importância das histórias contadas pelos professores. “É muito importante aprender sobre os mitos porque a gente ganha sabedoria”, disse.
Respeito  às Diferenças
A sanção da Lei Federal a 10.639/2003 e a aplicação da mesma na Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos serviu para fortalecer e legitimar o projeto pedagógico que já vinha sendo aplicado, segundo Consuelo Almeida, supervisora da Coordenadoria de Ensino e Apoio Pedagógico (CENAP), da Secretaria Municipal da Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secult). Para ela, a lei está contribuindo para o respeito às diferenças étnico-raciais.
Além disso, o trabalho da temática dentro da sala de aula tem ajudado a melhorar o interesse e o desempenho dos estudantes. “As aulas sobre a história e cultura africana estão levantando a auto-estima dos estudantes pelo conhecimento concedido. Isso tem contribuído para fazer com que esses alunos tenham, além do conhecimento, confiança para ascender socialmente e ter oportunidades iguais”, destacou a supervisora.
Consuelo Almeida destacou ainda que, desde que foi sancionada a legislação, a Secult vem realizando uma série de ações para capacitação e formação de professores. Ao todo, cerca de seis mil educadores da rede receberam material com a fundamentação teórica que trabalha as questões raciais. “Além disso, todos os meses são realizados ciclos de palestras que abordam a temática racial. “Hoje, os próprios professores estão mais conscientes sobre a importância do tema, exigindo que seja abordado. Na sala de aula não é diferente. Os professores passaram a ter um olhar mais sensível sobre os estudantes”, avalia a supervisora.

Fonte: Secult

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