Morre construtor de trios Orlando Tapajós, aos 85 anos

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O construtor de trios elétricos Orlando Tapajós, 85 anos, morreu neste domingo (17). Seu Orlando, responsável por trios icônicos, como a Caetanave, estava internado no Hospital Teresa de Lisieux, no Itaigara, desde segunda-feira (11), quando sofreu um infarto. Desde então, estava na Unidade de Terapia Intensivas (UTI).

A informação foi confirmada logo nas primeiras horas da manhã deste domingo pelo presidente da Associação Baiana de Trios Independentes (ABTI), Paulo Leal. “A ABTI e toda comunidade carnavalesca está de luto e lamenta profundamente a perda do grande carnavalesco e ícone da história da Bahia e do Brasil. Estamos auxiliando a família em todos os procedimentos para o sepultamento e, em breve, informaremos o horário e local“, disse Leal, em nota divulgada pela assessoria do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar).

Além de ter sofrido um infarto, Seu Orlando estava com um quadro de infecção urinária, como explicou o filho dele, Orlandinho Tapajós, ao CORREIO, na quarta-feira (13). Já neste domingo, o neto mais velho do construtor de trios, Neto Tapajós, divulgou um texto em homenagem ao avô. Na mensagem, ele agradece ao avô por ter ensinado o que é “ser um Tapajós”.

Confira o texto na íntegra 

“Hoje o meu dia está acabando de forma triste, mas consciente da luta, coragem e persistência deste guerreiro em viver. Jamais esquecerei a última lição que meu avô me ensinou, ainda no leito hospitalar: NUNCA DESISTA DE NADA E NEM DE NINGUÉM.

É de forma alegre que eu, o seu neto mais velho, sempre irei lembrar do senhor. Sendo sinônimo de carnaval, sendo um guerreiro, que falece hoje acreditando na vida, enfim sendo perseverante em tudo. Todas as suas conquistas são as nossas próprias conquistas meu carequinha.

Meu avô Orlando Tapajós, obrigado por tudo. Obrigado por ter me ensinado de forma simples o que é ser um “Tapajós”, pois o “Tapajós” sempre foi e continuará sendo apenas o senhor. Engraçado que sempre me perguntam no meu meio profissional: “Neto, como você consegue isso?”, “Neto, você não desiste por quê?” Etc etc… Pois bem, daí vem o alicerce da força e determinação da Família Tapajós.

A foto postada foi tirada no Carnaval 2018 e agora ele fica imortalizada como um dos últimos momentos de um dos maiores Carnavalescos que este Brasil já teve, agora o saudoso ORLANDO TAPAJÓS! Fisicamente morre a última lenda viva da verdadeira história do Carnaval da Bahia, mas o seu legado está perpetuado, quem conhece a história do Trio Elétrico, sabe a que me refiro. Um homem que nunca largou o Carnaval da Bahia mesmo quando largaram ele.

Vai com Deus meu careca, Vai com Deus meu velho. Te Amo… te amarei sempre!
#LUTO”

Dificuldades e benefício 
Em fevereiro deste ano, a Associação Baiana de Trios Independentes (ABTI) concedeu um benefício mensal de R$ 6 mil ao construtor do trio elétrico.

A instituição se sensibilizou com a história do artista depois que o CORREIO publicou uma reportagem dias antes, no fim de janeiro, que mostrou que um dos maiores nomes do Carnaval de Salvador estava vivendo com R$ 900 por mês, em um apartamento de 30 m², no Imbuí.

Em 2015, a Prefeitura de Salvador criou um circuito em homenagem a Orlando Tapajós, que vai do Clube Espanhol ao Farol da Barra, e funciona durante o pré-Carnaval. No Carnaval de 2018, Seu Orlando também foi homenageado, mas pela ABTI. O construtor de trios desfilou em cima do trio puxado por Armandinho, Dodô e Osmar durante o desfile do bloco Me Deixa À Vontade, no circuito do Campo Grande (Osmar).

O trio
Seu Orlando virou ‘Tapajós’ em algum momento de 1956. Pouco antes do Carnaval, ele contou a história ao CORREIO. Na ocasião, lembrou de quando começou – ainda quando diretor do Flamenguinho, antigo clube de futebol do bairro de Periperi. Na época, dariam uma festa e Orlando decidiu contratar o trio Cinco Irmãos, que era ‘o 2º da Bahia’, criado logo após o de Dodô e Osmar. No entanto, no dia da festa, ninguém apareceu: nem trio, nem os Cinco Irmãos. Mais tarde, Seu Orlando descobriria que o pai dos irmãos era rival de um dos diretores do clube.

Assim, o universo deu um empurrãozinho. Revoltado, Orlando teve a ideia que mudaria sua vida. De repente, ele, que nunca tinha pensado em ter um trio elétrico na vida, decidiu que faria o seu próprio.

“Peguei o microfone e falei para o povo: vou fazer um trio para mim. O povo aplaudiu muito”, lembrou Seu Orlando, em entrevista ao CORREIO, em janeiro.

Ele recorreu justamente a Dodô, que, em algum momento do passado, tinha dito que, se um dia ele quisesse, lhe ensinaria o ofício dos trios. Dodô indicou, então, com quem encomendar os instrumentos de profissão e onde comprar os outros artefatos. Aos poucos, começava a nascer o primeiro Trio Tapajós.
O nome veio do pai. “Ele disse ‘bota Tapajós”, conta Seu Orlando, sem se recordar muito dos detalhes do motivo. Naquele momento, nem Orlando, nem seu pai faziam ideia de que o Tapajós daria origem a vários outros ‘jós’: Marajós, Valnejós… Todos queriam um Tapajós para chamar de seu.

O Tapajós, então, foi o primeiro trio elétrico a percorrer o Brasil. Esteve em grandes eventos – que vão desde o Círio de Nazaré, em Belém (PA), até na abertura do Carnaval do Rio de Janeiro, antes mesmo das escolas de samba.

Uma de suas obras mais memoráveis foi justamente a criação da Caetanave – o trio elétrico em forma de nave que homenageou Caetano Veloso, em 1972. A história da inspiração é famosa: Orlando viajara ao Rio para comprar material. No avião, leu uma revista que falava sobre o Concorde, um avião supersônico que foi produzido entre as décadas de 1960 e 1970. O impacto da imagem foi tão grande que ele decidiu que aquele seria seu próximo trio.

Pegou a revista, levou ao banheiro e, discretamente, arrancou a página com a foto da nave. Guardou entre o pé e o solado do sapato. “Fiz o trio escondido, sem ninguém saber. Só faltava o nome”, recorda. O trio foi batizado justamente com a chegada de Caetano ao Brasil, depois de voltar do exilio. O próprio Caetano subiu ao palco com Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. “Eu estava com a maior tripulação”.

Cronologia
1950 – Dodô e Osmar criam o primeiro trio elétrico da história
1956 – Orlando, então diretor de um clube de futebol de Periperi, cria o Trio Tapajós. Ele viria a ficar conhecido como Orlando Tapajós
1972 – Orlando Tapajós cria uma de suas invenções mais icônicas: a Caetanave, trio em forma de nave que homenageava Caetano Veloso, que voltará do exílio
1981 – Luiz Caldas, hoje Rei do Axé, encontra Tapajós em Itabuna. O cantor vem para Salvador e passa a liderar o Tapajós
1981 – Trio Tapajós toca na comemoração do título mundial do Flamengo, no Rio de Janeiro
1994 – Segundo Tapajós, foi o ano em que fez o último de seus trios. O equipamento também foi vendido

 

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