Cristiano Araújo: um ídolo da Seattle sertaneja

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As redes sociais explodiram na quarta-feira (24) com duas ondas de manifestações que se chocavam. Na primeira, uma legião de fãs lamentava a morte do cantor e compositor sertanejo Cristiano Araújo, de 29 anos, cujo carro capotou de madrugada perto da cidade de Morrinhos, em Goiás. No mesmo acidente morreu sua namorada, Allana Moraes, de 19 anos. A outra onda, criada em resposta à comoção inicial, perguntava, sinteticamente, “quem é Cristiano Araújo”? O jovem que para uns era um astro familiar e querido era, para outros, um total desconhecido. Desde o momento da morte do cantor, até seu enterro com a presença de 60 mil pessoas, a repercussão da tragédia monopolizou a programação das TVs, ampliando a sensação de perplexidade. Como alguém poderia ser tão famoso e estimado e, ao mesmo tempo, tão desconhecido dos demais? A parte do país que nunca ouvira falar de Cristiano Araújo foi sendo rapidamente apresentada a suas canções, a sua biografia e a seus shows multitudinários – enquanto em Caruaru, no Agreste pernambucano, onde ele deveria fazer uma apresentação no dia seguinte ao acidente, os fãs se reuniram debaixo de chuva e assistiram, emocionados, a vídeos relembrando sua carreira.


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O Brasil é um país de 200 milhões de sociólogos. Para explicar essa aparente incongruência – o cantor famoso que “ninguém” conhecia –, inventaram-se teorias-relâmpago. A mais popular falava de “divisão cultural” do país entre a “elite urbana cosmopolita”, que desconhecia os hits de Cristiano, e o “povo simples do interior”, que chora ao ouvir os versos simples de “Caso indefinido”: Será que alguém explica a nossa relação/Um caso indefinido, mas rola paixão/Adoro esse perigo, mexe demais comigo. Essa teoria supõe que as tais elites urbanas ouviriam música bem mais sofisticada – bossa nova e jazz, ou quem sabe MPB de vanguarda – e viveriam num outro universo cultural, mais elevado.

Familiares e amigos se despedem de Cristiano Araújo

Nada disso é demonstrável estatisticamente. Uma pesquisa publicada em 2013 por ÉPOCA mostrou que rock e MPB são sons de minoria mesmo nas classes A e B. A maioria em todo o país – e em todas as classes sociais – escuta mesmo o sertanejo. A rachadura cultural, ao menos desse ponto de vista, é um mito. Mas existem de fato outras divisões, mais óbvias, que ajudam a entender por que muita gente nas redes sociais não sabia quem era Cristiano Araújo: idade e geografia. Seu público parece ser predominantemente jovem. Gente com mais de 30 anos nunca ouvira falar dele até o fim de junho – assim como não sabe quem é Bruno Mars, um cantor havaiano de 29 anos que arrasa entre os adolescentes do mundo inteiro cantando pop.

A geografia também oferece uma explicação. Goiano, oriundo de uma região que já foi chamada de “Seattle do sertanejo” (em alusão à cidade que foi berço do rock grunge americano), Cristiano contava com um enorme público regional, que aprecia não só o estilo do que ele cantava, mas tinha um carinho adicional pelo menino do lugar – que começou a cantar e compor com 10 anos e, adolescente, ganhou na TV um concurso de melhor sertanejo do Centro-Oeste. A economia do interior do país é forte o suficiente para promover e sustentar seus ídolos. Hoje em dia, não é mais necessário um cantor se estabelecer como nome nacional para viabilizar uma carreira milionária.

O Brasil é sertanejo

Outro dado importante é que a internet não mudou apenas a forma como as pessoas escutam música. Ela alterou também – e radicalmente – a divulgação dos próprios artistas. Numa era em que é a internet, e não o rádio, o principal meio de acesso à música, é mais difícil “massificar” um cantor – para usar o jargão das gravadoras nos anos 1970 e 1980. Nos anos 1970, o Brasil inteiro – e não apenas regiões específicas – conhecia a obra de Odair José simplesmente porque ele tocava no rádio. Na era da “cauda longa” em que vivemos, estabelecem-se os nichos. Cada um escolhe a música que quer ouvir, e não existem mais os ídolos de toda uma geração, como no passado. Em vez disso, existem artistas que são fortes em determinadas regiões ou determinados segmentos. “A internet intensifica o racha que sempre existiu entre quem conhece ou não conhece algum artista”, afirma Marcos Lauro, editor do site da Billboard.

Paradoxalmente, Cristiano Araújo “massificou-se” via internet depois de sua morte. Nas 48 horas que se seguiram a seu acidente, as canções de Cristiano foram ouvidas dez vezes mais do que o usual no serviço de música Spotify. Eram, provavelmente, pessoas “descobrindo” o que ele cantava. Cristiano lançou quatro discos, três DVDs, 11 singles e atingiu o auge de público na turnê de Efeitos, entre 2011 e 2012. Tinha uma agenda de 280 shows anuais pelo Brasil e já fizera três turnês nos Estados Unidos e uma na Europa, na qual visitou quatro países. “Goiânia, a cidade em que ele nasceu como músico, parou na sua morte. Os bares fecharam, e muita gente se reuniu para prestar a última homenagem”, afirma o produtor Rafael Vanucci. A internet levou a música de Cristiano ao mundo – mas ele nunca deixou de ser um artista de seu nicho, a Seattle sertaneja.

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