‘Se o paciente melhorava, que mal faria?’, diz criador da ‘pílula do câncer’

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O professor aposentado da USP cujo trabalho com a chamada “pílula do câncer” acabou mobilizando milhões de reais em verbas públicas e causando contrariedade em boa parte da comunidade científica do país diz que o boca a boca entre pacientes e médicos o levou a distribuir por décadas a substância conhecida como fosfoetanolamina para doentes de câncer.

“Como o médico indicava e o paciente estava melhorando, eu pensei: que mal haveria em dar?”, declarou à Folha o químico Gilberto Orivaldo Chierice, 72. “Não considerava que aquilo era responsabilidade minha, era responsabilidade do médico que fazia a indicação. Eu nunca analisei ninguém, até porque não sou médico, o cara é que me trazia o exame mostrando o antes e o depois com resultados bons.”

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Chierice recebeu a reportagem da Folha na varanda de sua casa, que fica a poucos metros de um dos portões do campus principal da USP em São Carlos (SP). Fumando continuamente um cigarro de palha (“Não consigo parar por sem-vergonhice mesmo, acho”, brinca), o pesquisador se disse convicto da eficácia da molécula estudada por ele e seus colegas, embora ressalte que não há “milagre” na ação da substância.

“Não estou dizendo que é uma panaceia. Se vai funcionar 200% em todos os tipos de câncer, não sou eu que tenho de dizer isso, os testes é que vão mostrar, mas por que não deixar que eles sejam feitos?”, questiona.

No fim de 2015, após uma enxurrada de ações judiciais e manifestações organizadas pelos pacientes que queriam ter acesso à substância, o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) anunciou que investiria R$ 10 milhões para testar a eficácia da fosfoetanolamina, a começar por ensaios com animais de laboratório.

Ao mesmo tempo, o governo estadual de São Paulo traçou um plano para iniciar estudos controlados da molécula com cerca de 200 pacientes humanos. Segundo o ministério, os experimentos com animais estão prestes a começar. Já o projeto paulista aguarda sinal verde da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).

Foi justamente a falta de evidências sobre a segurança e eficácia do produto que levou muitos especialistas a questionar o uso informal e a pressão para que verbas de pesquisa fossem destinadas ao tema a toque de caixa.

“Até onde sei, há centenas de moléculas mais promissoras que essa sendo avaliadas por pesquisadores brasileiros hoje”, resume Rafael Roesler, pesquisador do Departamento de Farmacologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). “As evidências da possível utilidade da fosfoetanolamina contra o câncer ainda estão num nível muito básico.”

De fato, do currículo de Chierice constam só seis trabalhos publicados sobre a molécula em revistas científicas internacionais (de um total de mais de 80 envolvendo outras áreas de pesquisa ao longo de sua carreira). As pesquisas saíram entre 2011 e 2013 e versam apenas sobre a ação da “fosfo”, como é chamada, em culturas de células em laboratório e animais.

Nenhum estudo envolvendo pacientes humanos foi publicado ainda. A divulgação de resultados em revistas científicas é considerada um passo essencial para validar uma hipótese de pesquisa, já que os dados, antes de serem publicados, precisam passar pelo crivo de outros cientistas da área.

PARCERIA INTERROMPIDA

Chierice, no entanto, argumenta que foram justamente testes controlados em humanos, os quais teriam sido feitos nos anos 1990, os responsáveis por motivar o interesse inicial dos pacientes na substância.
Ele cita o convênio assinado em 1996 entre o IQSC-USP (Instituto de Química da USP de São Carlos), onde lecionava, e o Hospital Amaral Carvalho, de Jaú (SP), hoje um dos centros de referência no tratamento de câncer do interior paulista, cujo objetivo teria sido avaliar a aplicação clínica da “fosfo”.

O trabalho de Chierice inicialmente não tinha nenhuma aplicação médica -sua especialidade era a química analítica, ou seja, as técnicas para quantificar o que acontece numa reação química.

Ele e seus colegas estavam estudando eletrodos que fossem seletivos para o elemento químico cálcio, ou seja, que “atraíssem” o cálcio de forma específica. “Para isso, seria interessante ter um cristal de fosfato, talvez um cristal orgânico, e a fosfoetanolamina parecia se encaixar bem nesse perfil”, conta.

Ao estudar as propriedades da molécula em meados dos anos 1980, porém, ele diz ter ficado assustado ao ver que trabalhos mais antigos apontavam uma relação entre a “fosfo” e a presença de tumores em animais, o que sugeria que ela poderia ser cancerígena. “A gente ficou preocupado em mexer com aquilo”, afirma.

De acordo com ele, análises mais aprofundadas da literatura científica indicaram que ela era muito comum em todo o organismo, sendo fabricada nos músculos e no fígado, além de estar presente no leite materno e até em frutos do mar.

“Aí me veio o estalo: e se for algo que o organismo está produzindo para combater o tumor?”, relembra Chierice. “Parecia algo alvissareiro.”

A equipe, que já tinha contato com o Amaral Carvalho e com a Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, conseguiu que a segunda instituição fizesse testes de toxicidade da “fosfo” em roedores.

“Ficou demonstrado que ela não era tóxica, muito pelo contrário, e que podia ser usada em qualquer ser vivo”, afirma Chierice. Segundo ele, isso teria animado a equipe e levado ao estabelecimento de um protocolo de testes em pacientes do hospital de Jaú.

ALTAS DOSES

É nesse ponto que não está totalmente claro o que aconteceu. Quando a Folha questionou o Amaral Carvalho sobre a parceria com a equipe de Chierice, a resposta inicial foi que o convênio só se referia ao teste de próteses feitas a partir de óleo de mamona, outra linha de pesquisa do químico na época.

A reportagem obteve então cópias do convênio assinado em 1996, o qual incluía, além da menção aos produtos derivados de mamona, a previsão de estudos conjuntos sobre “novas moléculas para disfunções celulares” – segundo Chierice, esse era o termo então usado para designar a “fosfo”.

A Folha perguntou se o hospital confirmava essa informação, mas, por meio de sua assessoria de imprensa, a direção do Amaral Carvalho disse que não iria se manifestar sobre o tema.

Chierice, porém, afirma que alguns pacientes chegaram a receber doses altas da molécula -inicialmente, teriam sido 30 comprimidos por dia- e teriam tido melhoras significativas. Para atender à demanda, diz que desenvolveu um método mais eficaz de síntese da “fosfo”. “Passamos a produzir um sal com altíssimo grau de pureza”, afirma. Embora o convênio tenha expirado em 2001, sem que o hospital continuasse a linha de pesquisa, Chierice afirma que o sucesso inicial fez com que outros médicos que tinham ficado sabendo da iniciativa sugerissem que seus pacientes fossem buscar a droga em São Carlos.

“Aí o médico ainda vinha pegar para ele, para a mãe, para a avó e para tia. E muitos coleguinhas da USP também vinham pedir, embora eu nunca tenha feito propaganda”, ironiza o químico.

Ao longo dos anos, diz que nunca distribuiu menos de 40 mil pílulas por mês. Dividindo esse número por 60 (a dose mensal que recomendava para cada doente), ele estima que cerca de 700 pessoas recebiam a “fosfo” todos os meses.

Para ele, esse número “já prova” que a molécula é eficaz, afirmação da qual quase todos os demais especialistas discordam -sem um controle rígido do estado de saúde de cada paciente e um acompanhamento constante de longo prazo, é impossível saber se a causa da melhora desses pacientes foi mesmo a “fosfo”.

“É um processo que está completamente fora da maneira como se estuda um medicamento contra câncer. Você cai num ciclo de pensamento mágico”, diz Roesler.

Chierice diz que tentou retomar a avaliação clínica da droga diversas vezes desde 2001, mas teve dificuldade de encontrar interessados. Foi por meio de uma parceria com pesquisadores do Instituto Butantan que a equipe conseguiu publicar os trabalhos que parecem elucidar o mecanismo de ação da “fosfo” no organismo.

Segundo esses estudos, a molécula seria capaz de alterar radicalmente o funcionamento das células tumorais, que normalmente são anaeróbicas (grosso modo, não “respiram” oxigênio). A substância forçaria as células de câncer a ficarem aeróbicas, ativando suas mitocôndrias (as usinas de energia das células).

“Se você enfia a fosfo numa célula de câncer, é como colocar gasolina azul [usada em aviões] num Fordinho 1929: vai voar pistão para todo lado”, compara Chierice.

“CIENTISTA TÍPICO”

Antigos colegas de Chierice, do IQSC, se mostraram relutantes em conversar com a reportagem -a Folha apurou que o caso da “fosfo” causou mal-estar generalizado. Um deles, que preferiu não se identificar e é professor da USP há mais de 20 anos, conta que, enquanto o pesquisador estava na ativa, a distribuição constante das pílulas para pacientes não despertou nenhuma reação coletiva entre seus pares.

“Mesmo que isso causasse surpresa, num ambiente como a universidade, o que você poderia fazer para coibir uma atividade de alguém que estava no mesmo nível administrativo que você? A rigor, nada. Não se vê isso como negligência, mas simplesmente como não fazer algo que não é da sua alçada, caso você não tenha um cargo administrativo”, explica o pesquisador.

Segundo ele, Chierice nunca pareceu fugir do perfil típico dos demais pesquisadores da universidade. “Sempre me pareceu um cara simples, na dele”, diz. Para o químico, o surpreendente é que situações parecidas não sejam mais comuns. “A falta de regulação ainda é muito mais a regra do que a exceção na universidade.”

Chierice, de fato, descreve-se como um sujeito “comum demais”. Pai de um casal de filhos e avô de cinco netos, descendente de italianos e natural da pequena Rincão (SP), afirma não ter ídolos entre os grandes nomes da ciência. “Sou o único cientista que acredita no Criador”, brinca, dizendo-se “católico, mas muito ecumênico”. Gosta muito de pescar, “mas antes de me aposentar não tinha tempo para isso, e agora a ‘fosfo’ me pegou de jeito”.

O químico atribui o tamanho da polêmica sobre o produto à proibição de sua fabricação na USP depois que ele se aposentou. “Com 700 pessoas usando por mês, é lógico que haveria ações judiciais”, diz. “Não me chamaram de professorzinho aposentado, de garrafeiro? Pois agora que provem que não funciona de verdade.”

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