O que houve com a empresa que adotou um salário mínimo de R$ 20 mil para funcionários

0

Era para ser uma ideia brilhante e humana. Há pouco mais de três meses, o americano Dan Price, fundador da empresa de tecnologia para pagamentos Gravity Payments, anunciou que estava abrindo mão do seu salário para aumentar o de seus funcionários. A ideia surgiu depois que Price ouviu de um amigo quais eram as dificuldades em bancar a faculdade e o aluguel com um salário de US$ 40 mil dólares por ano (isso dá uns US$ 3,3 mil por mês ou R$ 11,3 mil). Price, à época, ganhava US$ 1 milhão por ano.

Ciente de que boa parte de seus 120 funcionários ganhava menos do que os US$ 40 mil, Price resolveu anunciar a todos uma bem vinda novidade: estava abrindo mão de seu salário para estabelecer um novo piso para os funcionários da empresa: US$ 70 mil dólares anuais (ou cerca de R$ 20 mil por mês). Foi incrível.

link-zap
Loading...

Além da euforia gerada dentro da empresa, já que teve gente que viu de um dia para o outro o salário mais do que dobrar, foi um grande sucesso midiático e das redes sociais. Price virou notícia no mundo inteiro como um filantropo que acreditava num mundo menos desigual. Foi acusado de comunista por economistas liberais. A Gravity virou objeto de estudos de professores de Harvard. O presidente deu entrevista em diferentes programas de TV. Foi um dos melhores casos de mídia espontânea que ocorreram este ano. É impossível calcular o quanto Price gastaria em publicidade para ter repercussão similar.

Pois bem. Foi justamente essa incrível repercussão para o caso que acabou transformando a medida de Price num pequeno pesadelo, como revela uma matéria publicada neste final de semana pelo jornal The New York Times. A reportagem é enorme e traz discussões bastante interessantes para quem lê em inglês. Mas, em resumo:

A companhia estava despreparada para responder a toda a atenção que passou a receber por e-mail e mensagens no Facebook. “A atenção foi emocionante, mas também desgastante e perturbadora”, descreve a reportagem.

Alguns clientes interpretaram a medida como um “posicionamento político” de Price e resolveram romper seus contratos. Outros, acreditando que toda a publicidade faria com que a empresa cobrasse mais caro por seus serviços, também pularam fora.

Price teve até o que é chamado de “problema bom”. Para atender à grande demanda de novos clientes trazidos por toda a repercussão na mídia, a Gravity contratou dezenas de pessoas. Como essa boa fase tende a passar a medida que as pessoas comecem a esquecer essa história, podem ser que em breve esses funcionários felizes que ganham US$ 70 mil por ano correm o risco de ficar sem seus empregos.

Por fim, alguns funcionários não ficaram tão felizes assim que acabaram deixando a empresa. Quem tinha um salário próximo dos US$ 70 mil e estava há muitos anos na companhia, viu pessoas mais novas dobrando seu salário de uma hora para outra e equiparando-se aos ganhos. Uma visão egoísta? Talvez. Mas falar assim à distância é fácil.

>> Leia também: 20 curiosidades sobre o WhatsApp que talvez você não saiba

Com todos os desafios e problemas que criou para si mesmo, uma coisa ninguém tira de Price: ele melhorou em muito a vida de boa parte de seus funcionários. Pergunto: se tivesse uma empresa, abriria mão de seu salário para diminuir a diferença do que ganha para seus funcionários?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here