Júlia Fetal: o feminicídio na Avenida Sete que inspirou a novela Espelho da Vida

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Enterrada ao lado de Catarina Paraguaçu, jovem foi morta com ‘bala de ouro’ pelo noivo; ele ganhou indulto de D. Pedro II, mas cumpriu pena. Veja 10 curiosidades

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A trama de Espelho da Vida, novela das 18h da TV Globo, se passa numa cidade fictícia do interior mineiro, mas é inspirada numa história real da capital baiana, ocorrida há 172 anos. Júlia Clara Fetal, então com 20 anos e um futuro promissor pela frente, foi atingida com um tiro no peito pelo noivo, o bacharel e professor João Estanislau da Silva Lisboa, 28, num sobrado da futura Avenida Sete, próximo à Praça da Piedade.

Contam que ele usou uma bala de ouro, feita com o anel de noivado derretido, o que inclusive inspirou o título de um livro de Pedro Calmon. A obra ‘A Bala de Ouro: História de um Crime Romântico’ narra de forma meio literária, meio jornalística, a história de amor e tragédia que mexeu com a sociedade baiana – e brasileira, afinal, até o imperador Dom Pedro II se meteu no imbróglio.

Mas para desenrolar o caso, de maneira mais dinâmica, destacamos 10 pontos (incluindo algumas curiosidades) desse feminicídio que entrou para nossa história e até hoje rende especulações.

1 – Inspiração para a novela
Autora de Espelho da Vida, Elizabeth Jhin confirmou que usou a história da jovem baiana de família tradicional para escrever a trama de Júlia Castelo (vivida por Vitoria Strada), a mocinha assassinada pelo noivo, Danilo Breton (interpretado por Rafael Cardoso).

“Uma amiga museóloga de Salvador me falou sobre o caso de uma jovem, Júlia Fetal, assassinada pelo noivo, na cidade, no século XIX, e me inspirei nela para criar minha Júlia Castelo”, contou Elizabeth Jhin, em setembro, antes da estreia do folhetim.

Uma cena:
Cris/Júlia Castelo – Por que me chama de Júlia? Por que me deu o camafeu e a bala de ouro?
André – Eu tenho que ir…
Cris/Júlia Castelo – Não, espera! Meu nome é Cristina. Eu não sou a Júlia.
André – Você é… Você sabe que é, no fundo do seu coração.

Na ficção, a morte da mocinha foi no meio do mato.

2 – Endereço do crime era sobrado em que morou Castro Alves
O poeta Castro Alves nasceu um mês antes de Júlia Fetal morrer – ele é de março de 1847, enquanto ela faleceu em abril do mesmo ano. Como conta o historiador e colunista do CORREIO Nelson Cadena, a família da jovem se desfez do sobrado quando o imóvel pegou fogo, pouco tempo após o crime.

O sobrado, que foi reconstruído com algumas intervenções arquitetônicas, acabou adquirido pela família de Castro Alves em 1852. O poeta morou lá na infância, recém-chegado a Salvador procedente de Muritiba, no Recôncavo, quando tinha 5 aninhos.

No século XX, o prédio foi derrubado e construído outro imóvel onde até outro dia funcionava a farmácia Sant’Ana, na altura da Igreja de São Pedro, na Piedade. A repórter Fernanda Lima contou a história da loja, inclusive citando o morador ilustre.

A Praça Castro Alves, em homenagem ao poeta, foi construída no final da Avenida Sete, mas uma lembrança dele continua ali em frente, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB): um singelo tufo de cabelo do finado escritor. Aliás, cabelos de Júlia também podem ser encontrados ali pertinho, como relíquia. O pequeno quadro decorativo (foto abaixo) feito com madeixas da donzela está no Museu do Traje e do Têxtil do Instituto Feminino, no Politeama.

3 – Triângulo amoroso ou simples rejeição?
Se Júlia traíra ou não o professor Lisboa, é impossível saber. Ele nunca explicara, com detalhes, o motivo do assassinato. Apenas especula-se que foi um crime de ciúme. E uma das versões mais aceitas se referem a um jovem estudante de Direito, de Recife, que estava de férias em Salvador.

O repórter Alexandre Lyrio, no caderno Correio Repórter em outubro de 2006 sobre o Caso Júlia Fetal, compara Lisboa ao personagem Bentinho, do clássico machadiano Dom Casmurro. “Atormentara-se pela dúvida. Apenas especulou estar sendo traído pela sua Capitu, a adorável Júlia. Como na literatura, a história verídica não revela ao certo se houve, de fato, infidelidade. Sem ponderações, João Estanislau levou o ciúme ao limite. Teria mandado derreter as alianças de noivado, fundida em peça de extremidade penetrante, recheada de pólvora. Um ourives da cidade baixa esculpira o objeto”, diz, citando a lenda que se perpetuou por décadas.

Se Júlia era ou não um coração de eterno flerte, há controvérsias. Mas a literatura, inúmeras vezes, tratou de imaginar. Jorge Amado, no livro Bahia de Todos os Santos, relembra o caso e reproduz os conceitos preconceituosos de parte da sociedade da época. Ressalta os dotes namoradeiros da vítima, ante o crime brutal.

“Ah, era inconstante o coração de Júlia Fetal. Moça bonita, a todos namorava. Estudantes, alferes, nobres, literatos(…) Nascera para amante, beijos furtados, para encontros clandestinos(…) Um professor doido de amor noivou com ela(…) O professor era ciumento e ela namoradeira(…) Um dia o estudante, no outro o policial, no sábado o poeta(…) Estrangulado de ciúmes, o professor fundiu uma bala de ouro(…) Ergueu a arma. A bala alojou-se no coração inconstante de Júlia Fetal”. Se traiu ou não, só nos resta a imaginação.

4 – Famílias tradicionais e o impacto do crime
Júlia Fetal era filha do negociante português João Batista Fetal, que morreu e deixou viúva a francesa Julie Fetal, mãe da jovem e descrita como metódica e enérgica.

Segundo Pedro Calmon, Júlia recebeu uma educação que não lhe faltara nada para os padrões da época: aprendeu pianoforte (instrumento que é ‘pai’ do piano atual), dedicou-se ao estudo da gramática francesa, da religião, das letras e adquiriu habilidades para pintar e bordar (no sentido literal, nesse caso), tudo que uma moça de família abastada poderia ter acesso. Foi inclusive aprendendo inglês que conhecera o noivo e assassino, inicialmente professor particular.

A tragédia impressionou e deixou a cidade dividida. Era assunto para discussões exaltadas nas ruas. O mito de valorização do crime romântico ganhou força e havia os que repugnavam e os que defendiam o professor Lisboa. Penalistas, cientistas e psicólogos tentavam entender as razões de um ato sem razão, como lembra o repórter Alexandre Lyrio.

Ao restante do povo cabiam as suposições, os boatos, os ditados populares e as verdades analisadas em cada pequeno detalhe.

“Nenhum outro assunto era mais importante. Não houve fato na terra mais discutido, mais esmaltado de cores sentimentais e lendas românticas”, comentou Cid Teixeira, em entrevista ao CORREIO em 2006.

5 – Julgamento que parou a cidade
Em 28 de setembro de 1847, às 9h, o professor Lisboa sentara no banco dos réus do Tribunal de Relação. Foi um acontecimento que parou a cidade. Na parte externa do júri, as pessoas se aglomeravam. Dentro do recinto, até o corpo de jurados permanecia em constante rebuliço. O falatório seguiu, sem descanso, por 24 horas.

A defesa elaborou uma inédita estratégia para resistir aos ataques. Pela primeira vez solicitou-se a realização de exame de saúde, tendo o réu se submetido a testes psíquicos dias antes do julgamento. “A uma hora e 20 minutos da tarde compareceu João Estanislau da Silva Lisboa em casa de residência do senhor juiz municipal para se submeter ao exame de sanidade que requereram seus advogados”, escreveu o jornal Correio Mercantil de 20 de setembro de 1847. Uma suposta “loucura moral” seria a base da defesa.

A tese de “demência amorosa” se fundamentaria nos discursos de psicólogos, médicos e fisiologistas. A acusação foi na direção contrária.

“Júlia Fetal
De família muito boa
Morreu assassinada
Pelo doutor Lisboa”
(Cantiga Popular em 1847)

O código da época previa até a pena de morte ou prisão perpétua para casos de assassinato. Para condená-lo à forca, os acusadores recorriam à frieza dos artigos e parágrafos. A defesa usou depoimentos apaixonados. Havia extraordinário entusiasmo nas ruas.

Na data do julgamento, a cidade estava realmente dividida. Apesar dos apoios que conseguiu, o réu ficaria em silêncio, mesmo nos momentos mais ásperos do debate.

“Nunca se lhe ouviu explicação, lamento soluçado, uma palavra que fosse”, escreveu Pedro Calmon.

Qualquer que fosse a sentença do juiz, ele aceitaria – prometeu a si mesmo. Se não fosse à forca, ficaria na cadeia o tempo que fosse determinado. Às 9h do dia seguinte, o veredito do conselho de sentença. Nem a forca, nem a prisão perpétua: 14 anos de cárcere.

A comoção tomou conta do recinto, diante do resultado, considerado quase como absolvição. “Não lhe tiraram a vida. Contentaram-se em suprimir-lhe a mocidade”, comentou Pedro Calmon, escritor que veio a falecer em 1985.

6 – Cumprimento de pena e visita de Dom Pedro II no Barbalho
O doutor Lisboa foi então cumprir sua pena no Forte do Barbalho. A cela era recoberta de livros. Havia alguns assentos improvisados, o quadro negro, e um mapa na parede. Ali ele passou os primeiros anos do cárcere, até ter a chance de pedir clemência. Não o fez.

A situação causou estranheza ao imperador Dom Pedro II, que não entendeu por que o eminente professor abdicou da comutação do castigo. Curioso, baixou no Forte do Barbalho em 30 de outubro de 1859. Com fardamento de gala, a guarnição do imperador chegou à cela com cara de sala de aula. O diálogo foi curto.

“Por que o senhor não requereu o indulto?”, questionou o imperador. “Permita-me, senhor, que nada requeira. Cumprirei a pena até o fim”, respondeu Lisboa.

Surpreso com a resposta, a majestade voltou a examinar os aposentos e, vendo que não havia o que contestar, apenas sorriu. João Estanislau ficaria ali todos os longos 14 anos.

7 – Retorno à sociedade
“Sofreu-os com imperturbável serenidade”. Assim Pedro Calmon descreveu os anos de cárcere do assassino de Júlia Fetal. Mas o cárcere escuro não o impediu de recuperar-se moralmente. Professor de renome, manteve a reputação. Recebia visitas de mestres, colegas e discípulos, atraídos pelo saber profundo, pela maneira diferenciada de ensinar.

Certo dia, o presidente da província foi solicitado. Os alunos queriam permissão para ouvir as lições lá mesmo, no Forte do Barbalho. Parecia-lhe desatino, mas concedeu autorização. A partir daquela data o doutor Lisboa deixaria de ser apenas o notável professor. Tornou-se célebre. “Ouvido como um oráculo, respeitado como um sábio, a quem os pais que queriam para os filhos uma boa educação, iam pedir à cadeia que tomasse à sua conta”, arremata Pedro Calmon. Para a Justiça, um criminoso. Para os alunos, mestre paternal.

Morador de casarão no topo da Ladeira da Montanha, gostava de nadar na baía, de madrugada.

“Nadava da Jequitaia em direção à Barra”, escreveu seu biógrafo e ex-discípulo Anísio Circundes.

Sem o mar e a liberdade, mas ainda com o status de mestre, o professor dirigiu, da cadeia mesmo, a partir de 1858, toda a pedagogia da melhor instituição de ensino da província, o Colégio São João, no Corredor da Vitória. “Marcou com sua competência e tragédia a vida do colégio e da educação na Bahia”, definiu Cid Teixeira no prefácio de A Bala de Ouro.

Esgotado o período de cárcere, em 1861, Estanislau assumiu pessoalmente a direção da escola. O professor era amado. Em aparições públicas, os alunos faziam coro:

“Viva o nauta que nos guia
Ao campo da erudição
Que além de ser sábio mestre
Tem de pai o coração”.

Os mesmos que o adoraram saíram dali pra vida social. Estanislau formou doutores, industriais, militares, professores como ele. Discípulos que mais adiante reformariam a pedagogia da capital. O auge do reconhecimento ao professor se deu numa festa pomposa, no Palácio da Vitória, com a presença, mais uma vez, do imperador Dom Pedro II.

Livre e reinserido, foi buscar novos ares na Europa. No velho continente publicou a obra-prima da sua trajetória: o Atlas Elementar de Geografia, editado em Bruxelas, na Bélgica, e que entrecruzava ideias de notáveis, como Humboldt e Michelet. Um dos poucos exemplares de que ainda se tem notícia pode ser encontrado na Biblioteca Pública do Estado, nos Barris.

Mapas, textos científicos e imagens inovadoras eram o prenúncio do ensino da geografia social, já em 1877. “Um dos mais modernos livros didáticos que surgiriam no Brasil do século XIX”, reforça Waldir Oliveira, da Academia de Letras da Bahia.

O historiador Nelson Cadena lembra ainda que João Estanislau teve atuação destacada na epidemia de febre amarela de 1850.

“Ele pegou a doença na cadeia e foi curado no Hospital da Misericórdia. Preferiu ficar após ter alta médica para cuidar dos outros enfermos e foi um dedicado voluntário colaborador”, comenta, ao lembrar que foi em função dessa solidariedade que a Santa Casa de Misericórdia solicitou ao Imperador seu indulto.

O professor Lisboa foi morar em Lisboa, onde veio a morrer, pobre e sozinho, a 9 de fevereiro de 1878, na Casa de Saúde Libonense. O certificado de óbito atestou doença no coração. “Matou-o finalmente o velho coração que o fizera matar”, resume Pedro Calmon.

Durante o tempo em que esteve vivo, ninguém ousaria mencionar o assunto em sua presença. Houve apenas uma exceção. Um dos seus alunos, em meio a importante evento cívico, quebrou silêncio de décadas: “Foi o senhor mesmo que matou aquela moça?” Respondeu: “Sim, fui eu”.

8 – ‘Vizinhança’ de Catarina Paraguaçu na Graça e bala sem ouro
O historiador Nelson Cadena lembra que Júlia Fetal mereceu honras póstumas sem precedentes na Bahia, quando foi morta. Para ilustrar isso, lembra que seus restos mortais estão depositados em uma urna, próxima do altar principal da Igreja da Graça, em frente da urna que contém os restos mortais de Catarina Paraguaçu.

No túmulo, um soneto da poetisa Adélia Fonseca, que resume o sentimento de parte da sociedade na época.

“Estavas Bela Júlia descansada Na flor da juventude e formosura Desfrutando as carícias e ternura Da mãe que por ti era idolatrada A dita de por todos ser amada Gozavas sem prever tua alma pura Que por mesquinho fado à sepultura Brevemente serias transportada Eis que de fero algoz a destra forte Dispara sobre ti Júlia querida O fatal tiro que te deu a morte! Dos olhos foi-te a luz amortecida E do rosto apagou-te iníqua sorte A branca, viva cor, com a doce vida.”

Quanto ao artefato, que acreditou-se por décadas se tratar de um material fundido das alianças de ouro do casal, a informação não procede. A bala, aliás, também está em exposição no Instituto Feminino, no Politeama.

“A bala é comum, de chumbo, e vulgar”, observou o doutor Colombo Espínola, médico baiano em meados do século passado.

“Ao desenterrar a pequena peça de metal por entre os restos mortais da jovem, decretava também o sepultamento de uma fábula. Desvendava-se, enfim, a faceta alegórica de um crime célebre, ocorrido quase um século antes”, comentou o repórter Alexandre Lyrio, que se debruçou sobre o caso em 2006.

9 – Nome de rua no Nazaré
Numa viela que liga o Convento do Desterro ao Fórum Ruy Barbosa, Júlia Fetal continua sendo um mito. Até hoje, moradores ainda discutem o assunto. Em 2006, havia até quem acreditasse que ela já tinha vivido ali. “Júlia Fetal morou numa dessas casas. Por isso o nome da rua”, afirmou uma moradora antiga ao repórter Alexandre Lyrio, em 2006.

10 – Médium diz ter conversado com espírito de Júlia Fetal
As lendas sobre o caso, claro, ainda se multiplicam. Aliás, cabem até relatos sobrenaturais, como o do educador João Cláudio Souza, que certa feita, na Igreja da Graça, ouviu uma voz pedindo-lhe ajuda e socorro. Segundo ele, era Júlia Fetal. A partir dali, iniciaria um trabalho espiritual em favor do espírito da jovem, livrando-a das amarras que a vinculavam a João Estanislau. “Hoje Júlia foi levada pela espiritualidade para ser doutrinada”. A experiência é narrada no livro Trabalhadores da Luz, editado em 2006.

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