Em ação truculenta, ambulantes têm barracas e mercadorias recolhidas na Barra

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Os ambulantes que montaram uma espécie de base de operações na Barra [Circuito Dodô], próximo ao Cristo, sofreram a primeira derrota do constante conflito com o chamado “Rapa”, na manhã desta quinta-feira (4). Fiscais da Secretaria de Manutenção da Ordem Pública (SEMOP), em companhia de uma guarnição da Guarda Municipal, recolheram barracas de camping e outros pertences dos camelôs que estavam alojados na praia.

“Barraca de camping está irregular. Tolerância zero. Eles têm que tirar licença e ficar no local correto. Era para ter tirado antes do Carnaval, agora já era. Esse material será levado para o depósito. A gente vai lacrar e dar o contra-lacre a eles para poderem retirar os pertences após o Carnaval”, explicou Antônio Moreira, coordenador do Posto 7 da SEMOP.

Naturalmente, a voz dos vendedores não foi silenciada pela presença dos guardas, tampouco dos agentes da SEMOP. A afirmação do coordenador de que “eles [ambulantes] saem do interior para fazer favela na cidade”, foi o estopim para vaias, réplicas exaltadas e, como era esperado, choro de crianças. Um das que não aceitaram o comentário foi Vanilda Santos, que replicou ‘de bate-pronto’

“Eles falam isso aqui, agora. Quando chega lá é outra coisa. Seis anos que trabalho aqui e é a primeira vez que aconteceu isso. Eles não passam a informação certa e depois fazem isso. Quando comprei minha licença não falaram nada sobre acampar aqui na praia. Aí quando a gente chega recebe a ‘rebombada’”, desabafa.

Truculência e lágrima

Para reaver o material recolhido, os vendedores terão que pagar uma taxa mínima de R$ 120, conforme divulgado pela SEMOP. Taxa esta que Moreira diz “não ter conhecimento” no momento em fez o trabalho para o qual foi designado. O aspecto humano é deixado de lado. Sem a devida instrução, produtos e um lugar para se abrigar, a matriarca de uma família que veio de Feira de Santana não entra em zona de conflito. O impacto da ação a deixa desolada demais para qualquer reação hostil.

“Todo mundo está aqui porque precisa. Esse ano está sendo muito difícil. Eu tenho dez anos que trabalho aqui e nunca vi isso. Já tinha dito: ‘se não tivesse comprado a mercadoria, já tinha ido embora’. Estão nos perseguindo demais. Estamos com a licença em mãos, compramos o kit, estamos com a cerveja certa e fazem isso. Somos seres humanos”, diz Maria Rita dos Santos, mãe de cinco filhos.

Emocionado, Adriano Freitas engrossa o coro. Pai de seis filhos e à espera do nascimento do sexto, o ambulante relata que na noite de abertura da folia momesca a truculência foi maior. “Rasgaram nossas lonas. Isso custa dinheiro. Sem elas vamos nos abrigar como? Manda desarmar e pronto. Se tivesse chovendo ficávamos na chuva. Cachorro, né?! Ninguém pode fazer isso nem com um bicho. Ninguém veio aqui para roubar, viemos trabalhar. Até a praia limpamos”.

No discurso das autoridades, o Carnaval “é feito pelo povo e para o povo”, mas do alto do trio elétrico e no ‘reservado’ dos luxuosos camarotes não se pode enxergar o sofrimento estampado na face de quem faz o trabalho de base nos circuitos. Seguir as regras é sempre necessário, desde que elas não sejam cumpridas de forma a arrancar lágrimas dos que ‘dão duro’ pelo pão de cada dia.

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