Ex-funcionário do Facebook abre jogo sobre ‘censura’ nas redes

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Um ex-moderador brasileiro de posts denunciados pelos usuários do Facebook rompeu o acordo de confidencialidade com a empresa e denunciou as suas políticas de controle de publicações. Em entrevista à BBC Brasil, o funcionário protegido pelo pseudônimo “Sérgio” denunciou também as condições do trabalho prestado para a rede social criada por Mark Zuckerberg.

“Checava se alguém se mataria ao vivo”, disse o moderador contratado por uma empresa terceirizada do Facebook, em meio ao desafio de avaliar postagens sobre pedofilia, nudez, necrofilia, suicídios, assassinatos, assédios, ameaças, armas, drogas e violência animal, divididas em 15 idiomas.

“Era como um grande call center, sem os telefones. A gente estava ali para atender ao cliente: no caso, o Facebook e todos os seus usuários”, contou na entrevista.

Os exemplos revelados pelo ex-moderador variam de imagens de adolescentes forçados a fazer sexo oral em acerto de contas do narcotráfico a bebês espancados por parentes no berço. De cachorros de ruas incendiados com isqueiro ao suicídio ao vivo de uma menina com uma lâmina de barbear.

A função explicada como uma espécie de “call center” digital se resumia a decidir, com a maior agilidade possível, se o conteúdo denunciado era agressivo, tolerável ou se passava dos limites estabelecidos pela rede. Assim, a missão do funcionário era apagar, ignorar ou direcionar a postagem para análise superior. Esta última opção seria exclusiva dos casos de pedofilia ou suicídio, que eram enviados também para as autoridades competentes.

Segundo o moderador, o trabalho era feito por meio de um tipo de timeline diferente, que exibia apenas as postagens denunciadas por outros usuários, em sequência aleatória, junto a um menu com a lista de possíveis violações. Os funcionários não conseguiam entrar nos perfis completos dos usuários durante o trabalho, teriam acesso apenas aos nomes das pessoas e aos posts denunciados.

Condições de trabalho

A denúncia do brasileiro ainda revela que a meta enfrentada em oito horas de trabalho diárias, remuneradas por um salário mínimo, era de 3.500 fotos, vídeos e textos denunciados – ou seja, mais de 7 por minuto ou um a cada 8,5 segundos. Ainda de acordo com a sua versão, celulares eram proibidos no ambiente de trabalho e as interrupções para lanches ou idas ao banheiro eram controladas. Os contratos ainda incluiriam multas ou processos judiciais em caso de quebra de sigilo por parte dos contratados.

O entrevistado não revelou o nome do escritório de moderação ou a cidade em que ele funcionava, mas garantiu já ter se demitido da função. Ele até teria excluído o seu perfil na rede social depois da experiência do outro lado da empresa.

Segundo consta na reportagem, a matriz americana do Facebook foi procurada pela BBC Brasil na segunda-feira (7). As perguntas foram encaminhadas pela matriz americana ao escritório paulista da rede, que teria preferido não comentar os relatos do ex-funcionário.

Contudo, a chefe de Política Global do Facebook, Monika Bickert, teria comentado em maio deste ano os desafios do trabalho de moderação de conteúdos da rede social.

“Eles têm um obstáculo: entender o contexto. É difícil julgar a intenção por trás de uma postagem, ou o risco implícito em outra. Alguém publica um vídeo violento de um ataque terrorista. Isso inspirará as pessoas a imitar a violência, ou a falar contra isso? Alguém escreve uma piada sobre suicídio. É um mero comentário ou um grito de ajuda?”, explicou a chefe em comunicado, em trecho reproduzido pela BBC Brasil.

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