Os robôs e a 4ª Revolução Industrial: Qual o futuro do mercado de trabalho?

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No Japão, um dinossauro-robô é o recepcionista de um hotel de luxo. Na Nova Zelândia, a companhia aérea New Zealand Air disponibiliza totens nos quais você mesmo faz o check-in, pesa e despacha as malas. O Reino Unido acaba de autorizar o uso da impressão digital em supermercados, o que significa que você não vai precisar de um caixa — nem de dinheiro — para pagar suas compras.

Esses são alguns dos exemplos de como o rápido avanço da tecnologia pode mudar nossa vida e impactar o mercado de trabalho.

De fato, muitos empregos estão com os dias contados com a chamada 4ª Revolução Industrial — período em que robôs serão programados para executar funções repetitivas e até mesmo tarefas completas de determinadas profissões. A previsão não é tão futurista quanto muitos imaginam. Estudos da Universidade de Oxford, no Reino Unido, apontam que cerca de 35% dos trabalhadores podem ser substituídos por robôs em 20 anos.

E isso não é só uma previsão para outros países, mas para o Brasil também. Um estudo da consultoria McKinsey revelou em maio deste ano que somos um dos países com maior potencial de automatização de mão de obra, atrás apenas da China e dos Estados Unidos na quantidade de trabalhadores que podem ser substituídos por robôs. Segundo a consultoria, 50% dos atuais postos de emprego no País podem ser automatizados.

“Estamos passando pela maior transformação da História da humanidade”, disse ao HuffPost Brasil Luis Rasquilha, CEO da Inova Consulting, consultoria e treinamento de futuro e inovação estratégica. Segundo o consultor, o mundo vive hoje uma nova e mais potente Revolução Industrial:

“A primeira mudança é que a maioria das profissões puramente operacionais de execução será substituída por máquinas”, disse. “E isso leva a outro impacto, que é o desafio de se reinventar [como profissional], de se preparar e formar capacidades para a nova realidade.”

Então, isso quer dizer que os robôs possivelmente vão roubar milhares de empregos? A resposta é sim. Mas isso não quer dizer que esta revolução no mercado de trabalho seja uma mudança ruim.

A automatização de algumas funções é o curso natural dos avanços da tecnologia, que otimizam a produção, minimizam os custos e buscam mitigar os erros. Imagina se os computadores nunca tivessem existido para que os datilógrafos não perdessem seus empregos, ou que os telefones ainda tivessem que passar por telefonistas que transferissem as ligações. Imagine então passar horas na fila para tirar dinheiro na boca do caixa do banco, em vez de usar os caixas eletrônicos ou ter de depender de agentes de viagem para reservar voos e hotéis.

“As pessoas temem o futuro com os robôs, mas eles trazem também excelentes notícias: as vidas das pessoas vão se prolongar, vamos ter cura para mais doenças, eles vão facilitar muito o nosso dia a dia”, disse a consultora de inovação de produto Luciane Aquino. “Este ano mesmo, a ciência deu um salto imenso ao conseguir editar o DNA de seres vivos. Isso é um marco e quer dizer que teremos controle de nossa evolução, de nossas doenças, seremos capazes de identificar células e melhorá-las.”

Para Luis Rasquilha, o ponto é que não dá para frear o avanço da tecnologia e, assim como empregos deixarão de existir, novas funções serão demandadas. “Haverá muito mais oportunidades do que ameaças com a chegada dessa realidade de substituição de funções repetitivas por robôs”, opinou.

As pessoas precisam mudar o olhar. Agora elas vão ter um robô para fazer as funções operacionais, então elas terão mais tempo para pensar na parte criativa, de se recapacitar, de achar funções de supervisão, mais reflexivas. Este é o caminho: as pessoas se reinventarem para a chegada de novas oportunidades.

Quais empregos estão na berlinda?

De acordo com o estudo da McKinsey, o setor com o maior percentual de empregos automatizáveis no Brasil é a indústria, na qual quase 70% dos postos podem ser realizados por robôs. A hotelaria, transporte e armazenamento vêm em seguida, em torno de 60%.

Isso acontece porque a maioria dos empregos gerados nesses setores tem funções repetitivas e mecânicas, que podem facilmente ser executadas por máquinas.

Segundo a consultora Luciane Aquino, a população de robôs programados para desempenhar funções repetitivas está crescendo rapidamente e pode chegar ao Brasil em pouco tempo. Além dos setores citados na pesquisa, outras profissões que podem ser extintas são: motorista particular e condutor de transporte público, com a vinda dos carros autônomos; faxineira, uma vez que robôs de limpeza estarão disponíveis no mercado; e caixa de supermercado, já que existem caixas automáticos.

A próxima etapa é a substituição de profissões com tarefas mais complexas pela inteligência artificial. “Os chamados robôs inteligentes demoram mais para serem desenvolvidos porque são mais complexos, mas estamos falando de robôs capazes de produzir conhecimento, interagir com humanos”, explica a especialista.

Então estamos falando de vendedores, tele-atendimento, auxiliar de enfermagem no pronto-socorro. A grande questão é: até que ponto os humanos vão aceitar um atendimento não humano em determinadas situações?

Essas máquinas também poderiam substituir algumas funções mecânicas de advogados, médicos, enfermeiros, gestores etc. “As profissões clássicas provavelmente deverão se adequar a essa tecnologia”, acrescenta Luis Rasquilha.

Por outro lado, profissões ligadas à tecnologia e criatividade serão mais demandadas, como programação em 3D, engenharia, gestor de redes sociais, gestor de big data e biotecnologia.

“Então chegamos a três profissionais que vão dominar o mercado de trabalho do futuro: as profissões clássicas, como médico e advogado, que serão atualizadas com a tecnologia, as profissões tecnológicas que vão trabalhar com a inovação, criação e construção dessas máquinas e as profissões emergentes, que serão criadas com as novas demandas, como piloto de drone”, prevê Luis Rasquilha.

Os desafios éticos e incentivo financeiro

Na opinião de Luciane Aquino, uma das profissões mais importantes para este futuro não tão distante é o cientista social. Esse profissional seria, continua a consultora, essencial para refletir sobre as mudanças econômicas e sociológicas que esses robôs vão trazer. “Não é o biólogo ou o empreendedor que vão decidir nosso futuro”, explica. “Desafios que são de ordem social não são respondidos por quem está criando a tecnologia.”

São os cientistas sociais que precisam discutir como será este futuro para o ser humano, pois são eles que vão formar políticas públicas para discutir até onde as máquinas podem fazer. O momento para pensar nestes limites é agora; depois que acontecer, é complicado.

A consultora pondera que, apesar de os robôs trazerem bem-estar e tempo útil para os humanos, também é preciso olhar para os trabalhadores com baixo nível de escolaridade que precisarão de mais tempo e incentivo financeiro para se prepararem para as mudanças no mercado de trabalho.

Nessa linha, Luis Rasquilha cita o Rendimento Básico Universal, que seria a ajuda financeira para as pessoas que perderam seus empregos para os robôs, como alternativa. “Ele consiste em empresas que tiveram economia financeira pela troca de pessoas por robôs a devolverem uma parte dessa economia à sociedade, para aquelas pessoas que não tiveram oportunidade de se realocar manterem minimamente sua qualidade de vida”, explica.

Uma alternativa, segundo Aquino, é a taxação de impostos sobre os robôs e a renda arrecadada ser distribuída para as pessoas mais impactadas pela mudança. “Não é o governo dando dinheiro, é a sociedade gerando riqueza e distribuindo entre os que precisam”, acrescenta.

Rasquilha pondera que o mundo está passando por uma revolução também no modelo econômico, tendo em vista que o robô aumentará a produtividade e custará muito menos que uma pessoa.

Não adianta substituir as pessoas por robôs e depois o mundo não poder comprar o que os robôs estão produzindo.

* A IBM School deste ano discutirá em São Paulo o futuro das profissões. A mesa com palestrantes será na próxima terça-feira (26) na Rua Tutóia, 1157, na IBM Brasil, na Vila Mariana, a partir das 18 horas.

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