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Mercado Livre mira fatia de mercado farmacêutico que movimenta mais de R$ 200 bilhões no Brasil

Gigante do comércio eletrônico já testa a venda de medicamentos em São Paulo e pretende transformar sua plataforma em uma vitrine para farmácias licenciadas de todo o país

O Mercado Livre está avançando sobre um dos maiores e mais disputados segmentos do varejo brasileiro: o mercado farmacêutico. A empresa já iniciou uma operação experimental de venda de medicamentos em São Paulo e acompanha a elaboração de novas regras que poderão permitir a participação de farmácias parceiras em seu marketplace.

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O setor desperta interesse pelo tamanho, pela frequência das compras e pela expansão dos canais digitais. Dados da IQVIA divulgados pela Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar) mostram que o varejo farmacêutico alcançou faturamento de R$ 240,97 bilhões no período de 12 meses encerrado em outubro de 2025.

Esse valor considera todo o varejo das farmácias, incluindo medicamentos, dermocosméticos, itens de higiene, cuidados pessoais e outros produtos de saúde. Portanto, é mais correto afirmar que o Mercado Livre pretende conquistar uma fatia desse mercado — e não que a empresa já tenha “abocanhado” os mais de R$ 200 bilhões movimentados pelo setor.

Compra de farmácia abriu caminho

Mercado Livre mira fatia de mercado farmacêutico que movimenta mais de R$ 200 bilhões no Brasil
Mercado Livre mira fatia de mercado farmacêutico que movimenta mais de R$ 200 bilhões no Brasil

O primeiro movimento concreto aconteceu em 2025, quando o Mercado Livre comprou a Cuidamos Farma, conhecida comercialmente como Target, localizada no bairro do Jabaquara, na zona sul de São Paulo.

A farmácia pertencia à Memed, empresa especializada em prescrições médicas digitais. A aquisição de 100% do estabelecimento foi aprovada sem restrições pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A compra provocou preocupação entre grandes redes de drogarias. Quando a entrada do Mercado Livre no setor se tornou pública, as ações de empresas como RD Saúde, Pague Menos e Panvel registraram quedas na Bolsa. Analistas, entretanto, ponderaram que a expansão nacional seria complexa por causa das exigências sanitárias e da necessidade de entregas rápidas.

O Mercado Livre afirmou que não pretende criar uma grande rede própria de farmácias. A drogaria adquirida funciona como uma espécie de laboratório para a companhia compreender questões como armazenamento, controle de validade, rastreabilidade, atendimento ao consumidor e transporte seguro de medicamentos.

Mercado Livre Farma começa como projeto-piloto

Em junho de 2026, a empresa colocou em funcionamento o projeto-piloto Mercado Livre Farma. A operação começou em áreas selecionadas da capital paulista, atendendo inicialmente bairros como Vila Mariana, Paraíso e Itaim.

Neste primeiro momento, são comercializados medicamentos isentos de prescrição, como determinados analgésicos, antitérmicos e antiácidos. A previsão informada pela empresa é de entrega em até três horas para a maior parte dos pedidos realizados nas regiões atendidas.

Os remédios não ficam armazenados nos centros de distribuição tradicionais do Mercado Livre. A operação parte de uma farmácia regularizada e funciona no chamado modelo 1P, no qual a própria empresa controla o estoque, a venda e a entrega dos produtos.

Segundo o Mercado Livre, foram implantados sistemas de monitoramento e equipes especializadas para assegurar a procedência, a validade e a segurança sanitária dos itens comercializados.

Objetivo é colocar farmácias dentro do marketplace

A intenção de longo prazo do Mercado Livre é adotar o modelo 3P, semelhante ao utilizado nas demais categorias do marketplace. Nesse formato, farmácias grandes, médias e pequenas poderiam oferecer seus produtos diretamente na plataforma, desde que estivessem devidamente licenciadas.

O Mercado Livre funcionaria como intermediador da venda, fornecendo tecnologia, meios de pagamento, publicidade e estrutura logística. A companhia já trabalha com o modelo de marketplace farmacêutico em países como México, Argentina, Chile e Colômbia.

A estratégia poderá representar uma oportunidade para drogarias regionais alcançarem consumidores de outras áreas. Por outro lado, essas empresas teriam de enfrentar a concorrência de grandes redes, custos logísticos, comissões da plataforma e regras rigorosas de controle sanitário.

Nova lei abriu espaço, mas regulamentação ainda não terminou

A possibilidade de expansão ganhou força com a Lei nº 15.357, sancionada em março de 2026. O texto estabelece que farmácias e drogarias licenciadas podem contratar plataformas de comércio eletrônico para realizar a logística e a entrega de medicamentos aos consumidores.

Em agosto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária revogou medidas que proibiam a comercialização e a propaganda de medicamentos em plataformas como Mercado Livre, Shopee, iFood, Rappi, Americanas e Submarino.

A própria Anvisa, porém, ressaltou que essa revogação não representa uma autorização automática para que qualquer vendedor anuncie medicamentos na internet. As farmácias continuam obrigadas a cumprir todas as exigências sanitárias, e as responsabilidades das plataformas ainda precisam ser detalhadas.

No dia 19 de agosto, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou a abertura de um processo regulatório específico. A futura norma deverá tratar de rastreabilidade, conservação dos produtos, transporte, fiscalização, responsabilidade técnica e divisão de obrigações entre farmácias e plataformas digitais.

Enquanto a regulamentação não for concluída, permanecem válidas as regras sanitárias atuais.

Concorrência pode mexer com preços e entregas

O Mercado Livre possui vantagens importantes para disputar esse mercado: uma base expressiva de consumidores, estrutura própria de pagamentos, grande capacidade tecnológica e uma das maiores redes logísticas do país.

As farmácias tradicionais, entretanto, também contam com vantagens competitivas. As grandes redes possuem milhares de lojas físicas, farmacêuticos disponíveis para orientação e capacidade de realizar entregas rápidas a partir do estabelecimento mais próximo.

A chegada de plataformas digitais poderá ampliar a concorrência, acelerar as entregas e facilitar a comparação de preços. Também poderá ajudar pequenas farmácias a conquistar visibilidade, caso o modelo permita sua participação em condições competitivas.

O principal desafio será garantir que medicamentos não sejam tratados como produtos comuns. Controle de receita, armazenamento adequado, combate a produtos falsificados e proteção dos dados de saúde dos consumidores estarão entre os pontos mais sensíveis da nova regulamentação.

Por enquanto, o Mercado Livre ainda não opera um marketplace farmacêutico nacional. A empresa testa a venda direta de alguns medicamentos em São Paulo, enquanto aguarda as regras que poderão abrir definitivamente as portas de um setor que movimenta mais de R$ 200 bilhões por ano.

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