Documentos liberados em 2026 mostram que autoridades americanas apuraram relato de uma esfera metálica com suposto tripulante morto em Conde; acervo histórico da CIA também contém referência a avistamento feito por piloto da Varig na costa baiana
A nova abertura de arquivos do governo dos Estados Unidos sobre objetos voadores não identificados colocou a Bahia no centro de um dos episódios mais curiosos da história da ufologia brasileira. Documentos tornados públicos em 7 de agosto de 2026 revelam que autoridades norte-americanas chegaram a investigar, em 1963, a história de um suposto objeto metálico que teria caído em Conde, no Litoral Norte baiano, com um ocupante morto em seu interior.
A pesquisa nos arquivos americanos mostra ainda outra referência à Bahia. Um documento histórico preservado na sala de leitura da CIA cita um episódio ocorrido em 1958, quando um piloto da Varig teria observado um objeto luminoso circular enquanto sobrevoava a costa do estado. Há, porém, uma diferença importante: esse segundo registro fazia parte de um relatório produzido por uma organização civil de pesquisa ufológica e sua presença no acervo da CIA não significa que o caso tenha sido comprovado pela agência.
O misterioso caso de Conde em 1963

O episódio mais significativo envolvendo a Bahia aparece em três documentos da quinta leva do Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters (PURSUE), sistema criado pelo governo americano para localizar, revisar, desclassificar e divulgar documentos relacionados aos chamados Fenômenos Anômalos Não Identificados, ou UAPs. A quinta liberação ocorreu em 7 de agosto.
Tudo começou com uma transmissão da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1963. O relato monitorado pelos norte-americanos afirmava que uma grande esfera metálica havia caído no centro de Conde e aberto uma cratera de aproximadamente quatro metros de profundidade.
A descrição era ainda mais extraordinária. Segundo a informação transmitida pelo rádio, o objeto possuía aberturas semelhantes a janelas protegidas por vidros grossos. Dentro da suposta esfera teria sido encontrado um corpo de aparência humana vestindo roupas pesadas com inscrições que não puderam ser identificadas.
A transmissão foi registrada pelo Foreign Broadcast Information Service (FBIS), serviço norte-americano responsável por acompanhar transmissões estrangeiras. O material chegou aos arquivos ligados ao National Aeronautics and Space Council, órgão responsável pela coordenação da política espacial dos Estados Unidos na época.
Governo dos EUA mandou investigar
O caso não ficou restrito a um recorte de imprensa.
Em 14 de novembro de 1963, a Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro produziu o documento identificado atualmente como DOS-UAP-D001, solicitando que as informações fossem verificadas. O texto mencionava um suposto “grande balão metálico tripulado” e a existência de um tripulante morto usando algo semelhante a um traje espacial.
Informações sobre o episódio chegaram a ser encaminhadas para análise envolvendo órgãos como o Departamento de Defesa e a NASA. O consulado norte-americano em Salvador foi acionado para verificar diretamente o que havia acontecido na Bahia.
Uma das hipóteses levantadas durante a apuração era de que o suposto objeto pudesse ser um balão meteorológico. Mesmo essa possibilidade, entretanto, não encontrou confirmação de uma queda na região de Conde.
Investigação terminou sem encontrar OVNI
O ponto mais importante dos arquivos é justamente o desfecho.
Em uma correspondência de 20 de novembro de 1963, atualmente identificada como DOS-UAP-D002, a representação americana informou que as buscas não haviam confirmado a história. O então cônsul dos Estados Unidos em Salvador, Harold Midkiff, relatou que jornalistas e outras pessoas que seguiram para Conde não localizaram testemunhas que tivessem visto o suposto objeto.
O documento registra a avaliação de que a narrativa teria sido aparentemente fabricada no Rio de Janeiro. O Ministério da Aeronáutica brasileiro também teria negado categoricamente a existência de qualquer objeto estranho caído em Conde.
Jornais baianos da época foram utilizados na investigação. Entre eles estavam o Diário de Notícias, de 9 de novembro, e o Jornal da Bahia, de 11 de novembro. Uma das matérias chegou a tratar o episódio com ironia sob o título equivalente a “O dirigível que não estava lá”.
Portanto, os documentos não provam que um OVNI ou uma nave extraterrestre caiu na Bahia. O que eles comprovam documentalmente é algo diferente e historicamente relevante: uma história extraordinária divulgada no Brasil chamou a atenção de órgãos norte-americanos, percorreu canais diplomáticos e de inteligência e motivou uma investigação oficial antes de ser considerada sem fundamento pelas autoridades que fizeram a apuração.
Outro documento americano cita OVNI na costa da Bahia em 1958
A pesquisa em arquivos norte-americanos revela ainda uma segunda referência curiosa à Bahia.
Na sala de leitura pública da CIA existe uma cópia do relatório “The UFO Evidence”, produzido pelo National Investigations Committee on Aerial Phenomena (NICAP), organização civil norte-americana que pesquisava relatos de OVNIs.
Entre os casos relacionados no material aparece uma ocorrência de 27 de maio de 1958 na costa do estado da Bahia. Segundo o registro, um avião da Varig comandado por um piloto identificado como Bittar teria sido acompanhado por um objeto circular intensamente luminoso, que teria realizado manobras e permanecido abaixo da aeronave.
Esse registro precisa ser interpretado com cautela. O fato de o documento estar atualmente disponível no arquivo da CIA não significa que a própria CIA tenha confirmado ou investigado oficialmente o avistamento. Trata-se de uma publicação do NICAP que acabou incorporada ao acervo documental da agência.
E o famoso caso de Feira de Santana?
A Bahia possui outros episódios conhecidos entre pesquisadores de ufologia, especialmente o chamado Caso Feira de Santana, associado a relatos ocorridos em janeiro de 1995 no distrito de Jaíba. A própria Prefeitura de Feira de Santana já publicou material histórico sobre a tradição de relatos ufológicos no município.
Entretanto, na pesquisa realizada nos documentos que compõem as liberações do PURSUE até agora, não foi localizado um arquivo oficial norte-americano recém-divulgado que comprove a alegação frequentemente repetida de participação dos Estados Unidos no episódio de Feira de Santana. As histórias que mencionam satélite americano, militares e transferência de objetos ou corpos para os EUA continuam aparecendo principalmente em narrativas ufológicas, e não nos documentos oficiais encontrados nesta busca.
Assim, entre os casos baianos, Conde é até o momento o episódio com vínculo documental mais claro com o atual processo de divulgação dos Estados Unidos.
EUA prometem liberar mais arquivos
O governo norte-americano informa que o trabalho de divulgação está longe de terminar. O PURSUE foi criado após uma determinação presidencial para localizar e revisar milhões de páginas mantidas por diferentes órgãos federais. O Departamento de Guerra afirma que novos lotes serão publicados gradualmente à medida que os documentos forem encontrados, revisados e liberados.
O próprio portal oficial faz uma ressalva importante: a divulgação de um arquivo relacionado a OVNIs ou UAPs não deve ser interpretada automaticamente como comprovação de tecnologia extraterrestre. Muitos documentos registram simplesmente relatos, investigações inconclusivas ou informações que circularam dentro do governo.
No caso da Bahia, os arquivos já permitem reconstruir uma história pouco conhecida: há mais de 60 anos, uma notícia transmitida pelo rádio sobre uma misteriosa esfera metálica em uma pequena cidade baiana chegou aos órgãos de inteligência e à diplomacia dos Estados Unidos — e provocou uma investigação internacional que agora pode ser consultada pelo público.






