Em dezembro de 2002, uma notícia que parecia saída de um filme de ficção científica ganhou repercussão mundial: uma organização chamada Clonaid anunciou o nascimento do primeiro ser humano clonado.
A criança teria recebido o nome de “Eve” e seria uma cópia genética de sua própria mãe. Nos meses seguintes, a organização ampliou as alegações e passou a afirmar que outros bebês clonados haviam nascido secretamente em diferentes partes do mundo.

Em março de 2004, a Clonaid declarou que já existiam 13 crianças produzidas por clonagem humana. Caso fossem reais, esses supostos clones teriam atualmente entre 22 e 23 anos.
Apesar do impacto provocado pelos anúncios, nenhuma das crianças foi submetida a testes genéticos independentes. Até hoje, não existe confirmação científica de que Eve ou qualquer um dos outros 12 supostos clones realmente tenha existido.
Quem era Eve, o suposto primeiro clone humano?
A história começou em 27 de dezembro de 2002, quando a química francesa Brigitte Boisselier, então dirigente da Clonaid, realizou uma entrevista coletiva nos Estados Unidos.
Segundo ela, uma menina havia nascido no dia anterior, por meio de uma cesariana realizada fora do território norte-americano. A criança, chamada publicamente de Eve, teria sido gerada a partir do material genético de uma mulher americana de 31 anos.
A Clonaid afirmou que o núcleo de uma célula da mãe teria sido colocado em um óvulo sem núcleo. O embrião resultante teria sido implantado no útero da mesma mulher, que posteriormente deu à luz sua própria cópia genética.
A mãe e a criança, entretanto, não participaram do anúncio. Fotografias, registros hospitalares, amostras biológicas e documentos sobre o procedimento também não foram apresentados.
Teste de DNA foi prometido, mas nunca aconteceu
Após o anúncio, a organização prometeu permitir que especialistas independentes comparassem o DNA da criança com o da mãe.
Esse exame seria relativamente simples e poderia demonstrar se as duas possuíam material genético nuclear praticamente idêntico. A Clonaid chegou a convidar o jornalista científico e físico Michael Guillen para acompanhar a verificação.
Dias depois, porém, Guillen suspendeu o procedimento. Ele afirmou que não havia recebido acesso à criança nem à família e que, sem a coleta independente das amostras, não seria possível confirmar a clonagem.
A Clonaid alegou que os pais desistiram do exame por medo de perder a guarda da criança depois que um advogado da Flórida pediu à Justiça a nomeação de um responsável para proteger a suposta bebê.
O prazo anunciado para apresentação das provas terminou sem qualquer teste de DNA. Guillen passou a considerar a possibilidade de toda a história ser uma fraude elaborada para gerar publicidade.
As alegações aumentaram de uma para 13 crianças
Mesmo sem comprovar o nascimento de Eve, a Clonaid continuou anunciando novos casos.
No início de janeiro de 2003, o grupo afirmou que uma mulher holandesa havia dado à luz uma cópia genética de si mesma. Poucas semanas depois, anunciou o nascimento de um menino para um casal japonês.
A organização dizia que esse terceiro bebê teria sido criado com células retiradas de uma criança que estava em coma. Um óvulo doado teria recebido o material genético do menino, e o embrião teria sido gestado por uma mulher que atuou como barriga solidária.
Em fevereiro de 2003, a Clonaid já afirmava que cinco bebês clonados haviam nascido. Além dos casos ligados aos Estados Unidos, Holanda e Japão, a organização mencionou crianças na Arábia Saudita.
Nenhuma delas foi apresentada para análise científica independente.
Empresa afirmou que um dos clones estava no Brasil
Em fevereiro de 2004, a Clonaid anunciou o nascimento de uma sexta criança clonada, supostamente localizada na Austrália.
No mês seguinte, a própria organização publicou uma declaração afirmando que outros oito bebês haviam nascido entre fevereiro e março, elevando o total para 13.
Segundo a Clonaid, essas oito crianças estariam na Austrália, Espanha, Itália, Inglaterra, Hong Kong, México — onde haveria duas — e Brasil.
A organização também afirmou que todas estavam saudáveis e que não haviam sido identificados problemas relacionados ao método utilizado em sua concepção. Entretanto, não divulgou nomes, hospitais, médicos, prontuários ou testes genéticos capazes de confirmar a história.
A simples menção ao Brasil despertou interesse das autoridades e da imprensa, mas nenhuma criança clonada foi localizada ou oficialmente identificada no país.
O que era a Clonaid?
A Clonaid foi criada em 1997 e mantinha ligação com o movimento raeliano, fundado pelo francês Claude Vorilhon, conhecido como Raël.
Os raelianos defendem a crença de que a vida na Terra teria sido criada por seres extraterrestres por meio de engenharia genética. Dentro dessa visão, a clonagem seria uma etapa no desenvolvimento de tecnologias capazes de prolongar a vida humana.
Brigitte Boisselier, que também ocupava uma posição religiosa no movimento, tornou-se o principal rosto público do projeto de clonagem.
A ausência de laboratórios identificados, pesquisadores com trabalhos publicados, prontuários médicos e resultados verificáveis aumentou a desconfiança em torno da organização.
Por que um teste de DNA seria tão importante?
Para provar que uma criança foi gerada por clonagem reprodutiva, não bastaria demonstrar que ela se parece fisicamente com outra pessoa.
Seria necessário comparar amostras biológicas coletadas sob supervisão independente. O DNA nuclear da criança precisaria corresponder ao da pessoa que forneceu a célula utilizada no procedimento.
Mesmo nesse caso, um clone não seria uma reprodução completa da personalidade ou das lembranças do indivíduo original.
Uma pessoa clonada teria desenvolvimento próprio, seria exposta a experiências diferentes e poderia apresentar características físicas distintas em razão do ambiente, da alimentação, da saúde e de outros fatores biológicos.
Na prática, seria semelhante a um gêmeo idêntico nascido muitos anos depois, e não uma cópia com os mesmos pensamentos e memórias.
Ciência nunca confirmou os 13 supostos clones
O Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano dos Estados Unidos informa que não existe evidência científica sólida de que seres humanos tenham sido clonados.
O órgão cita diretamente o caso da Clonaid e destaca que a organização nunca apresentou provas da existência de Eve nem dos outros 12 clones que afirmou ter produzido.
As diretrizes atuais da Sociedade Internacional para Pesquisa com Células-Tronco classificam como atividade proibida a implantação, em um útero, de embriões humanos produzidos por reprogramação nuclear com finalidade reprodutiva.
A clonagem reprodutiva também é condenada pela Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos da Unesco, que considera a prática incompatível com a dignidade humana.
Afinal, os 13 clones podem estar vivendo anonimamente?
Em teoria, seria possível manter a identidade de uma pessoa em segredo. O problema é que a Clonaid não apresentou sequer evidências indiretas suficientes para demonstrar que os procedimentos ocorreram.
Não há publicações científicas descrevendo a técnica, registros de acompanhamento das gestações, dados sobre tentativas malsucedidas ou exames realizados após os nascimentos.
Também nunca surgiu, ao longo de mais de duas décadas, uma confirmação independente envolvendo familiares, profissionais de saúde ou laboratórios.
Por isso, os 13 casos permanecem classificados apenas como alegações. O número não representa uma estimativa científica da quantidade de clones existentes no mundo.
Até que apareçam provas verificáveis, a conclusão aceita pela comunidade científica permanece a mesma: nenhum ser humano clonado foi comprovadamente identificado.





