Motoristas percebem que viagens deixam muito menos marcas de insetos nos carros; redução das populações, agrotóxicos, perda de habitats e mudanças climáticas estão entre as possíveis explicações.
Quem viajava de carro há duas ou três décadas provavelmente se lembra de chegar ao destino com o para-brisa, os faróis e a dianteira do veículo cobertos por pequenos insetos. Atualmente, mesmo depois de percorrer longas distâncias, muitos motoristas percebem que o vidro permanece praticamente limpo.
Mas o que aconteceu com os insetos que antes eram encontrados com tanta frequência nas estradas?
Essa percepção tornou-se tão comum que passou a ser chamada informalmente de “fenômeno do para-brisa” ou “síndrome do para-brisa limpo”. Embora as marcas deixadas nos carros não sejam suficientes, isoladamente, para medir a biodiversidade, pesquisas indicam que a observação pode estar relacionada à diminuição de insetos voadores em diferentes regiões.

Há realmente menos insetos voadores?
Existem evidências de quedas expressivas em determinadas regiões, mas não é correto afirmar que todos os insetos estejam desaparecendo na mesma proporção em todo o planeta. As populações variam conforme a espécie, o clima, o ambiente e o período analisado.
Um dos estudos mais conhecidos acompanhou insetos em 63 áreas de proteção ambiental na Alemanha. Os pesquisadores registraram uma redução média de 76% na biomassa de insetos voadores entre 1989 e 2016. Durante o verão, a queda chegou a 82%.
O resultado chamou atenção porque o levantamento foi realizado em áreas protegidas. Os próprios pesquisadores ressaltaram, entretanto, que os números não podem ser simplesmente aplicados a todos os países e ecossistemas. O estudo foi publicado na revista PLOS ONE.
Outra pesquisa, realizada na Dinamarca ao longo de 22 anos, comparou os insetos atingidos por automóveis com aqueles encontrados por métodos tradicionais de coleta. Os resultados mostraram uma relação entre a quantidade de insetos nos para-brisas e a abundância registrada por redes e placas adesivas. A pesquisa está disponível na revista Ecology and Evolution.
Isso indica que a experiência dos motoristas pode funcionar como um sinal de mudança ambiental, embora não substitua levantamentos científicos controlados.
Por que os insetos estão diminuindo?
Não existe uma única causa. Pesquisadores apontam uma combinação de fatores, entre eles a substituição da vegetação nativa por cidades, estradas, pastagens e grandes áreas agrícolas.
Com menos plantas, áreas úmidas e locais adequados para reprodução, os insetos perdem fontes de alimento e abrigo.
O uso de inseticidas e outros produtos químicos na agricultura também pode atingir espécies que não são o alvo da aplicação, incluindo abelhas, borboletas, mariposas, besouros e outros organismos importantes para o equilíbrio ambiental.
As mudanças climáticas representam outra pressão. Temperaturas extremas, secas prolongadas, chuvas fora de época e alterações nas estações podem prejudicar a reprodução e interromper a relação entre os insetos e as plantas das quais eles dependem.
A iluminação artificial durante a noite também interfere na orientação, na alimentação e na reprodução de mariposas e de outros animais atraídos pela luz. Poluição, queimadas, espécies invasoras e fragmentação de habitats completam o conjunto de ameaças.
Os carros modernos desviam os insetos?
Uma explicação frequente é que os carros atuais seriam mais aerodinâmicos e, por isso, desviariam os insetos antes que eles atingissem o vidro.
O formato do veículo realmente pode influenciar onde os impactos acontecem. A velocidade, o horário, as condições climáticas e o tipo de estrada percorrida também interferem na quantidade de insetos encontrados.
Entretanto, a aerodinâmica não parece explicar sozinha a mudança percebida pelos motoristas. Levantamentos padronizados continuam registrando redução nas colisões com insetos, mesmo quando fatores como percurso e distância são considerados.
Uma viagem realizada durante uma noite quente e úmida, próxima a rios, plantações ou áreas de mata, tende a produzir mais marcas do que um percurso urbano feito durante um período seco. Por isso, a comparação casual entre duas viagens pode oferecer resultados diferentes.
Pesquisas utilizam veículos para contar insetos
O projeto britânico de ciência cidadã Bugs Matter utiliza as marcas encontradas nas placas dos veículos para acompanhar possíveis alterações na quantidade de insetos voadores.
Os participantes fotografam e contam os insetos encontrados depois das viagens. Informações como distância percorrida, localização, tipo de veículo e condições climáticas ajudam os pesquisadores a comparar os resultados.
Segundo o levantamento, o número de insetos registrados nas placas caiu 62,5% entre 2021 e 2024 no Reino Unido. O resultado, porém, representa o território e o período pesquisados, não podendo ser tratado como uma taxa mundial. Os dados são divulgados pela Kent Wildlife Trust.
Por que o desaparecimento dos insetos é preocupante?
Apesar de frequentemente tratados apenas como um incômodo, os insetos realizam funções essenciais para os ecossistemas.
Eles polinizam plantas, decompõem matéria orgânica, ajudam na fertilização do solo, controlam pragas e servem de alimento para aves, peixes, sapos, lagartos e morcegos.
A diminuição desses animais pode afetar a produção de alimentos e provocar alterações em toda a cadeia alimentar. Menos insetos significam menos alimento para inúmeras espécies e menor capacidade de reprodução para plantas que dependem da polinização.
A ausência também pode ser percebida em outros locais. Lâmpadas que antes ficavam cercadas por mariposas durante a noite, por exemplo, atualmente atraem poucos animais em determinadas regiões.
Para-brisa limpo pode ser um alerta ambiental
O chamado fenômeno do para-brisa não prova, sozinho, que exista uma redução igual e generalizada de insetos em todos os lugares. Ainda faltam séries históricas extensas em diversas regiões, inclusive no Brasil.
No entanto, a percepção dos motoristas coincide com pesquisas que identificaram quedas expressivas em populações de insetos voadores.
Portanto, o para-brisa mais limpo pode não ser apenas resultado de carros modernos ou de mudanças na maneira de viajar. Ele também pode representar um alerta silencioso de que parte da vida encontrada às margens das estradas está diminuindo.







