Clientes que contrataram empréstimos ou serviços financeiros no Will Bank e no Banco Master estão denunciando o surgimento de dívidas inexistentes ou já quitadas em seus nomes no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central, banco de dados oficial que reúne o histórico financeiro de pessoas físicas e jurídicas no país.
De acordo com os relatos, os registros teriam sido feitos pelo Banco de Brasília (BRB), instituição que passou a adquirir carteiras de crédito do Banco Master a partir de 2024. Em muitos casos, os consumidores afirmam nunca terem tido conta ou qualquer vínculo direto com o BRB.

Dívidas quitadas ou que nunca existiram
Os problemas foram identificados principalmente por meio do Registrato, plataforma do Banco Central que permite aos cidadãos consultar gratuitamente suas informações financeiras. Ao acessarem o sistema, diversos clientes descobriram empréstimos marcados como ativos ou em atraso, mesmo após quitação junto ao Will Bank ou ao Banco Master — ou até mesmo sem nunca terem contratado tais operações.
Relatos semelhantes se multiplicam em sites de reclamação, redes sociais e junto a órgãos de defesa do consumidor, levantando suspeitas sobre falhas graves na transferência e atualização de dados bancários.
Entenda a ligação entre BRB, Master e Will Bank
O vínculo entre os clientes e o BRB surgiu após o banco brasiliense comprar carteiras de crédito do Banco Master, processo iniciado em 2024. Em março de 2025, o BRB chegou a anunciar um acordo para adquirir o controle do Master, em uma operação estimada em R$ 2 bilhões, mas a transação acabou vetada pelo Banco Central em setembro do mesmo ano, diante das fragilidades financeiras da instituição privada.
Em novembro de 2025, o Banco Master entrou em liquidação extrajudicial, após investigações da Polícia Federal apontarem um suposto esquema bilionário de fraudes, envolvendo a venda de carteiras de crédito consideradas de baixa qualidade ou até inexistentes. Segundo apurações, o BRB teria adquirido cerca de R$ 12 bilhões em créditos problemáticos.
Como parte de tentativas de compensação, novas carteiras foram transferidas ao BRB, incluindo operações originadas pelo Will Bank, braço digital do grupo Master. É nesse contexto que, segundo especialistas, podem ter surgido os registros incorretos de dívidas no SCR.
O que diz o BRB
Em nota, o Banco de Brasília (BRB) informou que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre pagamentos e quitações das operações cedidas. O banco afirma ainda que, pelas regras do sistema financeiro, a responsabilidade pelo acompanhamento dos pagamentos é da instituição que originou o crédito, ou seja, quem concedeu inicialmente o empréstimo.
O BRB declarou também que vem adotando medidas administrativas e judiciais para corrigir inconsistências, colaborar com as investigações e preservar os direitos dos clientes.
O que diz a legislação
Segundo Fabio Braga, sócio da área bancária e financeira do escritório Demarest, a venda e cessão de carteiras de crédito é prática comum no mercado financeiro. No entanto, ele destaca que os contratos precisam definir claramente quem será responsável pela gestão dos pagamentos e atualização das informações.
Já o professor Pedro Ramunno, especialista em direito empresarial do Mackenzie, reforça que a legislação brasileira obriga que o consumidor seja notificado quando ocorre a transferência de seu crédito. “A falta de comunicação adequada pode gerar insegurança jurídica e prejuízos diretos ao cliente”, explica.
Prejuízos para os consumidores
A inclusão de dívidas indevidas no SCR pode trazer consequências sérias, como:
- Restrição ao crédito
- Dificuldade para financiar imóveis e veículos
- Bloqueio de cartões e empréstimos
- Queda no score de crédito
Especialistas recomendam que consumidores afetados consultem o Registrato, reúnam comprovantes de pagamento e busquem seus direitos por meio do Procon, Banco Central e até ações judiciais, caso necessário.
Caso segue em investigação
O episódio ocorre em meio a um dos maiores escândalos financeiros recentes do país, envolvendo suspeitas de fraudes bilionárias, créditos fictícios e manipulação de carteiras bancárias. As investigações seguem sob responsabilidade da Polícia Federal e do Banco Central, com impactos que ainda podem se estender por meses.







