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Se o real perder força, como proteger seu dinheiro? Veja estratégias para enfrentar inflação e alta do dólar

O real não está próximo de desaparecer, como mostrou a análise dos indicadores econômicos brasileiros. Isso não significa, porém, que o dinheiro guardado esteja automaticamente protegido.

Uma moeda pode continuar circulando normalmente enquanto perde poder de compra todos os anos. Quando a inflação aumenta, o dólar sobe ou a confiança na economia diminui, a população sente os efeitos no supermercado, nos combustíveis, nas contas domésticas e nos produtos importados.

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Reserva de emergência, investimentos corrigidos pela inflação e diversificação internacional podem reduzir os efeitos da desvalorização, mas não existe aplicação completamente protegida de crises
Reserva de emergência, investimentos corrigidos pela inflação e diversificação internacional podem reduzir os efeitos da desvalorização, mas não existe aplicação completamente protegida de crises

Diante desse cenário, surge uma nova pergunta: como proteger o patrimônio caso o real continue perdendo valor?

A resposta não está em retirar todo o dinheiro do banco, comprar dólares às pressas ou apostar todo o patrimônio em ouro e criptomoedas. A proteção mais eficiente costuma ser construída com planejamento, diversificação e investimentos adequados ao prazo de cada objetivo.

A primeira proteção não é o dólar: é a reserva de emergência

Antes de procurar investimentos sofisticados, a pessoa precisa estar preparada para problemas mais comuns, como desemprego, doença, queda da renda ou uma despesa inesperada.

A reserva de emergência deve permanecer em uma aplicação segura, com baixa oscilação e possibilidade de resgate rápido. O objetivo desse dinheiro não é obter o maior lucro do mercado, mas estar disponível quando for necessário.

O próprio Banco Central afirma que a reserva ajuda a manter as finanças em dia sem que a pessoa precise recorrer a empréstimos e pagar juros em momentos de dificuldade. A orientação consta no material de Cidadania Financeira sobre como enfrentar imprevistos.

Entre as alternativas normalmente utilizadas estão o Tesouro Selic e CDBs com liquidez diária emitidos por instituições financeiras confiáveis. O Tesouro Direto classifica oficialmente o Tesouro Selic como produto adequado para reserva de emergência.

O valor necessário depende da estabilidade da renda, das despesas familiares e da facilidade de conseguir outro trabalho. Um profissional autônomo, por exemplo, pode precisar de uma reserva maior do que alguém com salário estável.

Eliminar dívidas caras também protege o patrimônio

Uma pessoa pode ter investimentos e, ainda assim, ficar financeiramente mais pobre se estiver pagando juros elevados no cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos.

Nessa situação, usar parte dos recursos disponíveis para quitar ou renegociar dívidas caras pode produzir um efeito financeiro maior do que procurar uma aplicação com rentabilidade elevada.

A lógica é simples: dificilmente um investimento conservador proporcionará, de forma líquida e garantida, uma rentabilidade superior aos juros cobrados nas modalidades mais caras de crédito.

Portanto, antes de dolarizar o patrimônio ou comprar ativos de risco, é importante verificar quanto está sendo pago em juros. Reduzir dívidas diminui despesas mensais e aumenta a capacidade de enfrentar períodos de inflação, desemprego ou redução da atividade econômica.

Tesouro IPCA+ pode proteger contra a inflação, mas exige atenção ao prazo

Para objetivos de longo prazo, como aposentadoria, compra de imóvel ou formação de patrimônio, os títulos corrigidos pelo IPCA são uma das alternativas disponíveis.

O Tesouro IPCA+ oferece a variação da inflação somada a uma taxa de juros definida no momento da compra. Mantido até o vencimento, o título busca preservar o poder de compra e ainda entregar um ganho acima da inflação. O Tesouro Direto apresenta o IPCA+ como proteção para objetivos de longo prazo.

Existe, entretanto, um cuidado fundamental: o preço do título pode oscilar bastante antes do vencimento.

Se o investidor precisar vender antecipadamente, poderá receber uma rentabilidade diferente daquela contratada e, dependendo das condições do mercado, poderá até resgatar menos do que esperava. Esse fenômeno é chamado de marcação a mercado.

Por isso, o vencimento do título deve estar alinhado à data em que o dinheiro será utilizado. A reserva de emergência não deve ser colocada em títulos longos sujeitos a oscilações.

CDBs podem ser utilizados, mas é preciso respeitar o limite do FGC

CDBs, RDBs, contas bancárias, poupança e determinadas letras de crédito podem contar com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, desde que atendam às regras do fundo.

O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, considerando o valor depositado em cada instituição ou conglomerado financeiro. Existe ainda um teto total de R$ 1 milhão em garantias pagas dentro de um período de quatro anos. As regras completas estão disponíveis no site do FGC.

O limite considera o valor aplicado e os rendimentos acumulados. Portanto, deixar exatamente R$ 250 mil investidos pode fazer com que uma parte dos juros fique acima da cobertura.

Também é necessário observar se bancos diferentes pertencem ao mesmo conglomerado. Aplicações distribuídas entre instituições de um único grupo podem ser somadas para o cálculo da garantia.

O FGC não deve ser interpretado como autorização para aplicar todo o patrimônio em bancos que oferecem taxas muito acima da média. Rentabilidades mais elevadas normalmente estão associadas a riscos maiores.

Ter parte do patrimônio exposta ao exterior reduz a dependência do Brasil

Quem mantém todo o dinheiro em ativos brasileiros fica completamente exposto à inflação, aos juros, às decisões políticas e ao desempenho da economia nacional.

A diversificação internacional permite que uma parte do patrimônio acompanhe empresas, títulos e moedas de outros países. Isso pode ser feito por meio de conta no exterior ou utilizando produtos negociados no Brasil, como ETFs globais e BDRs.

Os BDRs representam ativos negociados em outros mercados, mas podem ser comprados em reais pela bolsa brasileira. Seu valor é influenciado tanto pelo desempenho do investimento no exterior quanto pela variação cambial.

A Comissão de Valores Mobiliários explica que essa exposição pode ajudar a proteger contra uma eventual desvalorização do real. A CVM também alerta que os demais riscos continuam existindo: a empresa estrangeira pode perder valor, a bolsa pode cair e o dólar pode recuar. Confira o material educativo da CVM sobre BDRs.

Portanto, investimento internacional não significa lucro garantido. Sua função principal é evitar que todo o patrimônio dependa de um único país e de uma única moeda.

Comprar dólar em espécie não é necessariamente a melhor estratégia

Guardar notas de dólar em casa pode parecer uma proteção simples, mas envolve custos e riscos.

Na compra de moeda em espécie, existe diferença entre a cotação utilizada pelo mercado financeiro e o preço cobrado pelas casas de câmbio. Também há custo tributário, risco de roubo, perda, deterioração e dificuldade de armazenamento.

Além disso, o dólar parado não produz juros ou dividendos.

Para quem busca exposição cambial de longo prazo, investimentos internacionais diversificados podem ser mais eficientes do que simplesmente acumular notas. Já quem possui uma despesa futura em dólar, como viagem, curso ou compra programada, pode adquirir a moeda gradualmente para reduzir o risco de precisar comprar tudo justamente em um momento de cotação elevada.

Ouro pode ajudar em crises, mas também oscila

O ouro é tradicionalmente procurado em períodos de guerra, inflação, crise financeira e perda de confiança nas moedas. No Brasil, é possível ter exposição ao metal por meio de fundos e ETFs negociados na bolsa, além da compra física.

A B3 explica que os ETFs de ouro procuram acompanhar o preço do metal sem que o investidor precise armazená-lo diretamente. Esses produtos, entretanto, estão sujeitos a taxas, oscilações de mercado e variação cambial. Veja as modalidades apresentadas pela B3.

O ouro não paga juros nem dividendos. Seu preço também pode cair durante períodos prolongados. Por isso, costuma funcionar melhor como uma parcela complementar de diversificação do que como destino de todo o patrimônio.

Bitcoin e criptomoedas não devem ser tratados como proteção garantida

O receio de desvalorização das moedas nacionais frequentemente aumenta a procura por Bitcoin, stablecoins e outros criptoativos.

Embora algumas pessoas utilizem esses ativos como alternativa ao sistema financeiro tradicional, eles podem apresentar oscilações extremas, riscos de fraude, problemas de custódia e perdas provocadas pela quebra de plataformas.

O Banco Central esclarece que os criptoativos não são emitidos nem garantidos pela instituição. Eles também não contam com a proteção do FGC. Consulte a orientação oficial sobre ativos virtuais.

Criptomoedas podem integrar uma estratégia de pessoas que compreendem os riscos e suportam grandes perdas, mas não devem substituir a reserva de emergência nem concentrar recursos necessários para despesas essenciais.

Diversificar é mais seguro do que tentar adivinhar a próxima crise

Não existe um único ativo capaz de proteger contra todos os problemas.

O Tesouro Selic pode oferecer liquidez, mas continua denominado em reais. O Tesouro IPCA+ protege contra a inflação se for mantido até o vencimento, porém pode oscilar antes disso. O dólar pode subir quando o real enfraquece, mas também pode cair. O ouro ajuda em alguns momentos de crise, mas não gera renda. Ações e ativos internacionais oferecem diversificação, embora estejam sujeitos a perdas.

A proteção vem da combinação de aplicações com funções diferentes.

A CVM define a diversificação como uma técnica de gerenciamento de riscos. Quando ativos apresentam comportamentos distintos, o prejuízo em uma parte da carteira pode ser compensado ou reduzido pelo desempenho de outra.

Isso não elimina totalmente as perdas, mas diminui a dependência de uma única instituição, moeda, empresa ou decisão econômica.

Evite decisões tomadas pelo medo

Momentos de incerteza são explorados por pessoas que prometem investimentos “à prova de crise”, lucros garantidos ou oportunidades que supostamente precisam ser aproveitadas imediatamente.

Nenhum investimento legítimo consegue garantir simultaneamente rentabilidade elevada, ausência de risco e liquidez total.

Também é perigoso retirar todo o dinheiro de aplicações seguras para comprar dólares, ouro ou criptomoedas depois de uma forte valorização. Quem compra movido pelo pânico pode entrar justamente quando os preços estão mais altos.

A estratégia mais prudente é construir a proteção gradualmente, com aportes periódicos, respeito ao perfil de risco e distribuição entre objetivos de curto, médio e longo prazo.

Como começar a proteção financeira

O primeiro passo é organizar o orçamento e conhecer as próprias despesas. Em seguida, é importante reduzir dívidas caras e formar uma reserva de emergência.

Somente depois dessa base deve-se pensar em títulos corrigidos pela inflação, investimentos de longo prazo, ativos internacionais e outras formas de diversificação.

O real não precisa acabar para que uma família sofra perda de patrimônio. A inflação, os juros das dívidas e decisões financeiras impulsivas podem causar danos muito antes de uma eventual crise monetária.

A melhor proteção não é apostar tudo no fim do real. É montar uma estrutura financeira capaz de sobreviver mesmo que a moeda continue perdendo valor lentamente.

Aviso: Este conteúdo tem caráter educativo e não constitui recomendação individual de investimento. A escolha de produtos e valores deve considerar objetivos, prazo, situação financeira e tolerância a riscos.

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