Professora, tradutora e intérprete de Libras, Jaqueline Souza construiu uma trajetória entre educação, serviço público, participação social e estudos voltados ao comportamento humano
Por que um simples gesto com as mãos pode representar acesso à educação, informação e cidadania?
Durante o mês de setembro, essa pergunta ganha ainda mais espaço. É o período em que ações do Setembro Azul ampliam a discussão sobre a comunidade surda, a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a acessibilidade e o direito à participação social.
Em meio a campanhas, eventos e iniciativas de conscientização, histórias de quem trabalha diariamente para diminuir as barreiras de comunicação também ganham destaque.
É o caso de Jaqueline Souza, professora especialista, tradutora e intérprete de Libras, servidora pública do Município de Osasco e profissional com trajetória ligada à educação, à acessibilidade e à participação social.
Uma história que começou longe de São Paulo
Antes de se tornar profissional da área de Libras, Jaqueline viveu uma experiência que faz parte de sua formação pessoal: durante a pré-adolescência, morou em Itaberaba, na Bahia, onde estudou em escola pública e permaneceu na cidade até o ensino médio.
A educação pública esteve, portanto, presente em diferentes momentos de sua vida.
Anos mais tarde, Jaqueline seguiria justamente pelo caminho da educação. Formou-se em Pedagogia e posteriormente realizou pós-graduação em Letras-Libras pela PUC São Paulo, direcionando sua carreira para uma área que envolve comunicação, educação e inclusão.
Sua formação acadêmica também se ampliou para outros campos. Jaqueline possui pós-graduação em Psicanálise e Neurociência Clínica pela Faculdade Metropolitana de São Paulo, agregando à sua trajetória estudos relacionados ao comportamento humano e aos processos psicológicos e neurológicos.
Da sala de aula aos grandes eventos
A atuação profissional levou Jaqueline a ocupar diferentes espaços.
Como servidora pública do Município de Osasco, passou a integrar ações relacionadas à acessibilidade e à educação em Libras. Também atua como intérprete oficial em eventos municipais de Osasco, levando acessibilidade em Libras para cerimônias e atividades públicas.
Para além da interpretação, o trabalho representa uma questão central para a comunidade surda: o acesso à informação.
Uma palestra, uma cerimônia, uma apresentação cultural ou um serviço público só podem ser plenamente acessíveis quando a pessoa surda consegue compreender o que está sendo comunicado e também participar daquele espaço.
A Libras como instrumento de cidadania
A Libras ocupa papel fundamental nesse processo.
Reconhecida oficialmente no Brasil, a língua permite que pessoas surdas tenham uma forma de comunicação visual-espacial e fortalece o acesso à educação, à cultura, aos serviços e à participação social.
Por isso, o debate do Setembro Azul vai além da divulgação da Libras.
A discussão envolve também a necessidade de ampliar a presença de profissionais qualificados, intérpretes, professores e políticas de acessibilidade em diferentes setores da sociedade.
A pergunta deixa de ser apenas “você conhece Libras?” e passa a ser: “o espaço que você ocupa é acessível para uma pessoa surda?”
Participação social também faz parte da trajetória
A atuação de Jaqueline também ultrapassou os limites da educação e da interpretação.
Entre 2021 e 2026, participou do Conselho Municipal da Mulher de Osasco. Também integrou o Conselho do Esporte, ampliando sua participação em espaços de representação e discussão de políticas públicas.
Em outra frente, é fundadora do Instituto V.I.V.A. – Valorizar, Inspirar, Viver e Acolher, iniciativa voltada ao acolhimento e à transformação social.
Essa trajetória aproximou ainda mais seu trabalho de diferentes grupos e projetos ligados à inclusão e à participação cidadã.
Setembro Azul: um mês para olhar além da deficiência
A visibilidade da comunidade surda passa também por uma mudança de perspectiva.
Falar sobre pessoas surdas não significa falar somente sobre limitações. Significa reconhecer uma comunidade com língua, cultura, experiências, identidade e formas próprias de comunicação.
É nesse contexto que o Setembro Azul ganha significado.
Durante o mês, escolas, instituições, empresas, órgãos públicos e movimentos sociais promovem ações para ampliar o conhecimento sobre a comunidade surda e incentivar práticas de acessibilidade.
Para quem não convive diretamente com a comunidade surda, o período pode ser também uma oportunidade para começar a conhecer a Libras.
Uma trajetória que se encontra com uma causa
Da estudante de escola pública de Itaberaba à profissional que hoje atua na acessibilidade em Osasco, a trajetória de Jaqueline Souza atravessa diferentes territórios, experiências e espaços de participação social.
Sua formação reúne Pedagogia, Letras-Libras, Psicanálise e Neurociência Clínica, enquanto sua experiência profissional se desenvolve especialmente nos campos da educação, Libras, acessibilidade e serviço público.
Sua história se conecta a uma discussão que ganha força a cada Setembro Azul: acessibilidade não deve existir apenas em datas comemorativas.
Ela precisa estar presente na escola, no trabalho, nos serviços públicos, na cultura, na saúde, nos eventos e nos espaços de convivência.
Porque, para uma parcela da população, aquilo que parece apenas um detalhe — encontrar alguém que saiba se comunicar em Libras — pode ser justamente o que determina se uma pessoa conseguirá entender, participar e ser compreendida.
E talvez essa seja uma das principais mensagens deste Setembro Azul:
quando a comunicação se torna acessível, a participação também se torna possível.








