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Homens são maioria das vítimas de mortes violentas no Brasil: isso pode ser chamado de “masculinicídio”?

Brasil registrou 40,7 mil mortes violentas intencionais em 2025, enquanto dados recentes mostram forte predominância masculina em algumas formas de violência letal; números, porém, não permitem classificar essas mortes automaticamente como “masculinicídio”

A divulgação de novos números sobre a violência no Brasil reacende uma pergunta que aparece com frequência nas redes sociais e nas pesquisas na internet: se os homens representam grande parcela das vítimas de homicídios e outras mortes violentas, por que essas mortes não são classificadas como masculinicídio?

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A resposta exige separar dois conceitos diferentes: quem morre mais em situações de violência e qual foi a motivação daquele crime.

Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o país registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025, redução de 8,2% em relação a 2024. Foi a menor taxa registrada desde o início da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2012.

Ao mesmo tempo, alguns indicadores revelam uma concentração impressionante da violência sobre homens.

Em algumas formas de violência, quase todas as vítimas são homens

Um dos exemplos mais extremos aparece nas mortes decorrentes de intervenções policiais.

Em 2025, 6.602 pessoas morreram em intervenções policiais no Brasil, número 5,4% superior ao registrado no ano anterior.

Entre essas vítimas, 99,3% eram homens. Além disso, 82% eram pessoas negras.

Isso significa que, nesse indicador específico, praticamente todas as vítimas eram do sexo masculino.

A predominância masculina também aparece historicamente nos homicídios, especialmente entre jovens.

Esse cenário frequentemente é apresentado nas redes como evidência da existência de um suposto “masculinicídio” em larga escala no Brasil.

Mas essa conclusão não é sustentada simplesmente pelos números.

Homem assassinado não significa vítima de masculinicídio

A principal questão está na motivação.

Um homem pode ser assassinado durante uma disputa criminal, um roubo, uma briga, um conflito relacionado ao tráfico de drogas ou inúmeras outras circunstâncias.

O sexo da vítima, isoladamente, não demonstra que ela tenha sido morta por ser homem.

É exatamente nesse ponto que a comparação direta com o feminicídio pode levar a interpretações equivocadas.

Desde a Lei nº 14.994, de outubro de 2024, o feminicídio é um crime autônomo previsto no artigo 121-A do Código Penal.

A legislação estabelece como feminicídio matar uma mulher por razões da condição do sexo feminino. A própria lei determina que essas razões estão presentes quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A pena prevista é de 20 a 40 anos de reclusão.

Portanto, nem mesmo toda mulher assassinada é automaticamente considerada vítima de feminicídio.

Da mesma forma, o fato de milhares de homens serem assassinados não permite concluir que tenham sido vítimas de “masculinicídio”.

Masculinicídio é crime no Brasil?

Não existe atualmente no Código Penal brasileiro um crime autônomo denominado masculinicídio.

Essa distinção é especialmente importante porque a palavra vem sendo utilizada nas redes sociais como se já representasse uma classificação jurídica semelhante ao feminicídio.

Não representa.

Se alguém assassinar um homem, poderá responder por homicídio e pelas qualificadoras aplicáveis às circunstâncias concretas daquele crime.

O Código Penal prevê diferentes hipóteses de homicídio qualificado, incluindo crimes cometidos por motivo fútil, motivo torpe e determinados meios ou circunstâncias de execução.

Mas não existe uma categoria penal específica chamada “masculinicídio”.

Um dado recente ajuda a desmontar outra confusão

Outra discussão que ganhou força recentemente nas redes envolve quem mata os homens assassinados no Brasil.

Publicações começaram a circular afirmando que mulheres teriam assassinado mais homens do que homens assassinaram mulheres.

Os números atribuídos ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública estavam errados.

Uma análise dos microdados referentes a 2024 mostrou que, entre as Mortes Violentas Intencionais de homens cuja autoria estava identificada, 90,4% tiveram autores masculinos.

Mulheres foram responsáveis por aproximadamente 5% desses casos.

Há uma ressalva fundamental: em 2024, apenas 18,7% das mortes violentas intencionais de homens possuíam informação sobre a autoria no conjunto analisado, correspondendo a 8.009 registros.

Portanto, esses percentuais não podem simplesmente ser extrapolados para todos os homicídios do país.

Ainda assim, os dados disponíveis contrariam a narrativa de que a elevada mortalidade masculina seja explicada principalmente por homens assassinados por mulheres.

Por que homens morrem tanto?

Essa talvez seja uma questão mais relevante para políticas públicas do que a discussão exclusivamente terminológica.

A elevada mortalidade masculina envolve fatores que precisam ser analisados individualmente, como exposição à criminalidade, conflitos armados, atuação de organizações criminosas, violência urbana e intervenções policiais.

O dado sobre letalidade policial é particularmente expressivo: 99,3% das pessoas mortas por policiais em 2025 eram homens.

Isso mostra que existe uma dimensão claramente masculina na exposição a determinadas formas de violência letal.

Reconhecer essa realidade, entretanto, não exige transformar todas essas mortes em casos de “masculinicídio”.

Feminicídios caminharam na direção contrária em 2025

Os números mais recentes também mostram por que homicídio e feminicídio precisam ser analisados separadamente.

Enquanto o total de Mortes Violentas Intencionais caiu 8,2% em 2025, os feminicídios aumentaram.

O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, crescimento de aproximadamente 4% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica.

Ou seja, dois fenômenos aparentemente contraditórios aconteceram simultaneamente: a violência letal geral diminuiu, enquanto os feminicídios atingiram novo recorde.

Essa diferença reforça a importância de estudar não somente quantas pessoas foram assassinadas, mas por que, onde e em quais circunstâncias essas mortes aconteceram.

Então o termo “masculinicídio” está errado?

Não necessariamente quando utilizado como conceito dentro de determinado debate social ou acadêmico.

O problema surge quando a expressão é apresentada como se fosse uma classificação existente nas estatísticas oficiais brasileiras ou um crime previsto atualmente no Código Penal.

Não é.

Também seria incorreto pegar o número total de homens assassinados e apresentá-lo como número de “masculinicídios”.

Para chegar a uma estatística desse tipo seria necessário estabelecer critérios objetivos e analisar a motivação das mortes, demonstrando quantas pessoas teriam sido assassinadas especificamente em razão de sua condição masculina.

As bases oficiais de segurança pública brasileiras não possuem atualmente uma categoria nacional equivalente.

A maioria masculina entre as vítimas continua sendo um problema relevante

A inexistência do crime de masculinicídio não torna menos importante o fato de homens aparecerem de maneira desproporcional em determinadas estatísticas de violência.

Os dados de 2025 mostram isso de maneira particularmente clara.

O Brasil conseguiu reduzir as Mortes Violentas Intencionais para 40.775 casos, alcançando a menor taxa da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mas alguns grupos continuam muito mais expostos à violência do que outros.

Quando praticamente todas as pessoas mortas em determinada categoria são homens, como acontece nas intervenções policiais, existe um fenômeno de segurança pública que merece investigação e políticas específicas.

A diferença fundamental é que vitimização masculina e masculinicídio não são sinônimos.

Uma estatística mostra quem está morrendo. A outra expressão pressupõe uma discussão sobre a razão pela qual aquela pessoa foi morta.

Confundir essas duas coisas pode produzir números impressionantes para redes sociais, mas não ajuda a compreender a violência que efetivamente mata milhares de homens todos os anos no Brasil.