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Homens também podem ser vítimas de estupro no Brasil: dados revelam violência pouco discutida e possível subnotificação

Anuário da Segurança Pública mostra vítimas masculinas entre os registros de estupro e estupro de vulnerável; pesquisadores apontam que vergonha, estigma e concepções sobre masculinidade podem dificultar denúncias

Homens e meninos também podem ser vítimas de estupro no Brasil. Embora mulheres sejam a grande maioria das vítimas registradas, dados nacionais mostram uma parcela masculina que frequentemente recebe pouca atenção no debate público.

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Homens também podem ser vítimas de estupro no Brasil: dados revelam violência pouco discutida e possível subnotificação
Homens também podem ser vítimas de estupro no Brasil: dados revelam violência pouco discutida e possível subnotificação

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública informou no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 que vítimas do sexo masculino representaram 7,5% dos registros de estupro e 13,8% dos registros de estupro de vulnerável em 2024.

O próprio levantamento chama atenção para outra possibilidade: esses percentuais podem estar subdimensionados, porque barreiras sociais e simbólicas podem dificultar que meninos e homens revelem e denunciem a violência sofrida.

É um aspecto pouco conhecido da violência contra homens e também ajuda a ampliar a discussão que cresceu na internet em torno da palavra “masculinicídio”. Violência contra a população masculina existe em diferentes formas, mas é necessário utilizar corretamente cada conceito.

A lei brasileira reconhece que um homem pode ser estuprado

Existe uma confusão jurídica bastante comum sobre esse assunto.

O crime de estupro previsto no artigo 213 do Código Penal não estabelece que a vítima precise ser mulher.

A legislação pune quem constrange “alguém”, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar ou permitir que seja praticado outro ato libidinoso.

Isso significa que homens e mulheres podem juridicamente ser vítimas de estupro.

O mesmo raciocínio vale para meninos.

O estupro de vulnerável, previsto no artigo 217-A, protege pessoas nas situações estabelecidas pela legislação independentemente de serem do sexo masculino ou feminino.

Homens são 7,5% das vítimas de estupro registradas

Os números mais recentes disponíveis permitem observar a diferença entre os tipos de crime.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, referente aos registros de 2024, vítimas masculinas corresponderam a 7,5% dos estupros.

No estupro de vulnerável, a participação masculina foi maior: 13,8% das vítimas registradas eram do sexo masculino.

Esses percentuais não alteram o fato de que meninas e mulheres constituem a maioria das vítimas.

Mas também mostram que tratar estupro como um crime que biologicamente só poderia acontecer contra mulheres deixa de fora milhares de vítimas potenciais.

Entre vítimas masculinas, crianças merecem atenção especial

Dados históricos do sistema de saúde mostram uma característica particularmente preocupante.

Protocolo publicado na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde cita estudo dos registros de estupro de 2017 e 2018 no qual a faixa mais atingida entre vítimas masculinas foi a de crianças de 5 a 9 anos.

O pico da vitimização ocorreu entre meninos de 7 anos.

O dado ajuda a explicar por que a participação masculina é proporcionalmente maior entre os registros de estupro de vulnerável do que entre os demais estupros.

Também demonstra que falar de violência sexual contra homens significa, em grande medida, falar sobre a proteção de meninos.

Por que homens podem ter dificuldade para denunciar?

Uma revisão científica publicada na Revista de Saúde Pública analisou 53 estudos relacionados à violência sexual contra meninos e homens brasileiros.

Os pesquisadores encontraram repetidamente referências à subnotificação e concluíram que a violência sexual masculina ainda é pouco estudada no país.

Entre os obstáculos estão questões culturais relacionadas às próprias expectativas sobre masculinidade.

A ideia de que um homem deveria ser permanentemente forte, capaz de se defender ou sempre interessado em relações sexuais pode dificultar que algumas vítimas reconheçam o que sofreram como violência.

O estudo aponta que questões culturais, incluindo o machismo, contribuem para a subnotificação.

Isso cria um paradoxo: padrões culturais associados à masculinidade podem contribuir tanto para determinados comportamentos violentos quanto para silenciar homens que se tornam vítimas.

“Mas homem pode ser estuprado por uma mulher?”

Sim.

O sexo do autor também não é requisito para que exista o crime de estupro.

O que importa para a caracterização jurídica são os elementos definidos pelo Código Penal, incluindo o constrangimento mediante violência ou grave ameaça para a prática dos atos previstos na legislação.

Portanto, juridicamente, podem existir diferentes combinações entre sexo da vítima e sexo do agressor.

Cada caso precisa ser analisado pelas autoridades conforme as circunstâncias concretas.

Violência sexual pode deixar consequências muito além das lesões físicas

A revisão sobre violência sexual masculina encontrou associação com diferentes problemas posteriores.

Entre os fatores identificados nos estudos estavam isolamento social, transtorno de estresse pós-traumático, problemas relacionados à saúde sexual e reprodutiva e ideação suicida.

Os pesquisadores defenderam a estruturação de acolhimento específico para meninos e homens vítimas de violência sexual com o objetivo de prevenir ou minimizar consequências negativas.

A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia também reconhece expressamente que a violência sexual pode atingir crianças, adolescentes, mulheres e homens, independentemente de classe social, raça, etnia, orientação sexual ou escolaridade. A página oficial sobre atendimento foi atualizada em março de 2026.

Dados masculinos não diminuem a violência sofrida pelas mulheres

Outro cuidado é necessário ao apresentar esses números.

O Brasil registrou 87.545 estupros e estupros de vulnerável em 2024, maior quantidade da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. As mulheres continuaram constituindo a enorme maioria das vítimas.

Apresentar a existência de vítimas masculinas não contradiz essa realidade.

Permite apenas observar uma parte menos conhecida do mesmo problema.

Políticas públicas podem reconhecer que mulheres e meninas são desproporcionalmente atingidas pela violência sexual e, simultaneamente, garantir que um menino ou homem violentado encontre atendimento adequado e seja reconhecido como vítima.

O silêncio pode esconder parte do problema

Talvez essa seja a questão mais importante revelada pelos estudos.

Os registros oficiais mostram vítimas masculinas, mas pesquisadores alertam que não é possível assumir que todas as vítimas chegam às autoridades ou aos serviços de saúde.

Quando um menino aprende que denunciar abuso colocaria sua masculinidade em dúvida, ou quando um homem acredita que será ridicularizado ao dizer que foi vítima de violência sexual, cria-se uma barreira adicional para que o crime seja conhecido.

Por isso, o percentual de homens nas estatísticas não deve ser interpretado simplesmente como uma medida exata de quantos sofrem violência sexual.

Ele mostra quantos chegaram aos sistemas que produziram aqueles registros.

A dimensão que permanece escondida é justamente uma das questões que a ciência brasileira ainda tenta compreender.

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