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Suicídio mata mais homens que mulheres no Brasil: por que a diferença é tão grande?

Dados do Ministério da Saúde mostram que homens representaram quase 78% das mortes por suicídio registradas em 2021; fenômeno ajuda a revelar uma dimensão da mortalidade masculina que não deve ser confundida com “masculinicídio”

Quando se discute violência e mortalidade masculina no Brasil, os homicídios normalmente ocupam o centro das atenções. Existe, porém, outro indicador que apresenta uma diferença impressionante entre homens e mulheres: as mortes por suicídio.

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Suicídio mata mais homens que mulheres no Brasil: por que a diferença é tão grande?
Suicídio mata mais homens que mulheres no Brasil: por que a diferença é tão grande?

Dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que o país registrou 15.507 suicídios em 2021. Desse total, 12.072 ocorreram entre homens e 3.431 entre mulheres — além de quatro registros com sexo ignorado. Ou seja, aproximadamente 78% das pessoas que morreram por suicídio naquele ano eram homens.

A diferença não é um fenômeno isolado daquele ano. Análises anteriores do próprio Ministério da Saúde já identificavam risco de morte por suicídio substancialmente maior entre a população masculina.

Os números acrescentam uma questão importante ao debate que atualmente ocorre em torno de termos como “masculinicídio”: existem problemas de mortalidade que atingem homens de maneira desproporcional, mas compreender suas causas exige ir além de uma comparação simples entre os sexos.

Para cada mulher, mais de três homens morreram por suicídio

O levantamento mais detalhado do Ministério da Saúde sobre o período de 2010 a 2021 permite dimensionar a diferença.

Em 2021, as mortes por suicídio representaram 1,21% de todos os óbitos masculinos, enquanto entre as mulheres correspondiam a 0,43%.

Em material técnico mais recente de prevenção, o Ministério resume a situação afirmando que a taxa de suicídio entre homens no Brasil é cerca de três vezes maior que entre mulheres.

Uma análise anterior, referente a 2019, encontrou diferença ainda maior: homens apresentavam risco 3,8 vezes superior de morrer por suicídio. Naquele ano, a taxa masculina foi de 10,7 mortes por 100 mil habitantes, contra 2,9 entre mulheres.

O risco entre homens aumenta com a idade

Existe outra característica pouco conhecida.

Segundo a cartilha de prevenção ao suicídio publicada pelo Ministério da Saúde, entre os homens a taxa de suicídio aumenta progressivamente conforme a idade e atinge o maior nível entre aqueles com mais de 70 anos.

Isso mostra que a discussão não pode ficar limitada aos homens jovens.

Embora adolescentes e adultos jovens sejam grupos importantes para políticas de prevenção, homens idosos também apresentam uma vulnerabilidade que merece atenção.

Por que tantos homens morrem dessa forma?

Não existe uma única explicação.

O próprio Ministério da Saúde destaca que o comportamento suicida pode ocorrer entre pessoas de diferentes condições econômicas, idades, configurações familiares, orientações sexuais e identidades de gênero.

O sofrimento pode estar associado a múltiplos fatores e precisa ser analisado individualmente.

No caso masculino, existe ainda uma questão reconhecida pela própria política pública brasileira: a relação dos homens com os serviços de saúde.

O Brasil possui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). Entre seus objetivos está justamente ampliar e qualificar o acesso da população masculina adulta aos serviços de saúde e modificar paradigmas relacionados à forma como homens percebem o cuidado com a própria saúde.

A política determina inclusive que os serviços sejam organizados de forma que homens se reconheçam como pessoas que também necessitam de cuidado.

Brasil possui uma política específica para a saúde masculina

Esse é um aspecto que frequentemente passa despercebido nas discussões sobre direitos e proteção aos homens.

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem existe no SUS desde 2009 e foi posteriormente atualizada.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil é o único país da América Latina com uma política de saúde específica para a população masculina.

A PNAISH busca reduzir a morbidade e a mortalidade masculina por meio do enfrentamento dos fatores de risco e vulnerabilidades e da ampliação do acesso aos serviços de saúde.

A própria norma que instituiu originalmente a política reconhecia que os indicadores brasileiros apresentavam coeficientes de mortalidade masculina consideravelmente superiores aos femininos ao longo das diferentes idades.

Conheça a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem

Suicídio masculino pode ser chamado de “masculinicídio”?

Não.

Apesar da predominância masculina nas estatísticas, suicídio e masculinicídio são conceitos completamente diferentes.

A palavra “masculinicídio” vem sendo empregada em debates sociais para descrever a morte de um homem supostamente motivada por sua condição masculina.

Mas não existe atualmente no Código Penal brasileiro um crime autônomo denominado masculinicídio.

Também seria incorreto utilizar a expressão para classificar mortes por suicídio.

Os dados sobre suicídio revelam uma vulnerabilidade específica da população masculina, mas não representam mortes provocadas por alguém em razão de a vítima ser homem.

Essa diferença é essencial para que números reais sobre mortalidade masculina não sejam utilizados de maneira equivocada nas redes sociais.

A violência contra homens vai além dos homicídios

A discussão também ajuda a ampliar uma visão frequentemente limitada sobre mortalidade masculina.

Quando se observa apenas o número de homens assassinados, deixa-se de perceber que a população masculina enfrenta riscos elevados em diferentes áreas.

O suicídio é uma delas.

Em 2021, foram 12.072 homens mortos por suicídio no Brasil.

O dado significa uma média de aproximadamente 33 mortes masculinas por dia naquele ano.

Esse número não deve ser somado aos homicídios para construir uma estatística artificial de “masculinicídio”. São fenômenos completamente distintos.

Mas ele demonstra que políticas destinadas à redução da mortalidade masculina precisam considerar não apenas segurança pública, como também saúde mental, prevenção e acesso aos serviços do SUS.

O silêncio masculino também precisa entrar no debate

A existência de uma política nacional dedicada à saúde dos homens mostra que o próprio Estado reconhece barreiras específicas nessa população.

Entre as diretrizes da PNAISH está a reorganização dos serviços para que os homens percebam as unidades de saúde como espaços que também lhes pertencem e para que os próprios serviços reconheçam homens como sujeitos que necessitam de cuidados.

Esse ponto é particularmente relevante quando o assunto é saúde mental.

Transformar sofrimento psicológico em uma questão que o homem deveria suportar sozinho pode dificultar a busca por ajuda justamente quando uma intervenção profissional seria necessária.

Os números mostram que o problema não é pequeno.

A predominância masculina nas mortes por suicídio é um dos indicadores mais claros de que falar seriamente sobre vulnerabilidades dos homens não exige disputar ou diminuir os problemas enfrentados pelas mulheres.

São fenômenos que podem coexistir e demandar respostas diferentes do poder público.

E talvez esse seja um caminho mais produtivo para o debate atualmente associado ao “masculinicídio”: identificar quais situações realmente estão levando homens a morrer em proporções tão elevadas e discutir políticas capazes de evitar essas mortes.

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